SILAS PERDIDO EM BERLIN

SILAS PERDIDO EM BERLIM

Dr.Graça chamou Silas em seu gabinete e comunicou-lhe secamente, como era seu estilo:
– Você vai para Berlin, Silas.
Ninguém na repartição sequer ousaria descumprir uma ordem do Dr. Graça, e não seria ele, Silas, que abriria um precedente, portanto, retirou-se do gabinete sem saber quando e porque teria de viajar para Berlin. Quanto aos trâmites burocráticos, Dona Rosa, secretária fidelíssima do Dr. Graça saberia lhe dizer.
Porque ele teria de ir para Berlin? A esta pergunta Silas vasculhou seu cérebro e não encontrou a resposta. Foi ter com D. Rosa que, como previra, já dispunha de todos os detalhes da viagem:
– Você vai na próxima Sexta-feira, às 23 horas, partindo de São Paulo e chegará a Frankfurt às 14:35, hora local. Aqui neste envelope estão, sua passagem e US$ 3.000,00 em dinheiro. Hoje é segunda-feira, portanto se você não tem ainda passaporte fale com o setor de pessoal que eles providenciam tudo até quinta-feira. Não é necessário visto nem vacinas. Seu retomo será na outra sexta-feira e o horário está marcado na passagem. Outros detalhes estão num memorando dentro do envelope. Boa viagem, Silas.
Houve um silêncio momentâneo na conversa até que Silas, um tanto reticente perguntou:
– Dona Rosa… A senhora tem ideia do motivo desta viagem?
A secretária olhou-o com uma expressão de surpresa e após fitá-lo respondeu, incrédula com o que ouvira:
– Não! Não tenho a menor ideia.
Silas pensou que fora inábil a maneira que falara pois ela poderia ter interpretado aquilo como uma desconfiança sobre a sua própria discrição. Procurou corrigir o que imaginara ter sido um erro:
– Quero dizer, o Dr. Graça não deu nenhuma recomendação verbal adicional?
– Oh! Não, é claro que não, se fosse assim eu teria lhe falado.
– Claro! Claro! Mas eu pensei que ele poderia ter-lhe feito algum reparo de última hora. Né? Pelo interfone, talvez…
– Não! O interfone não tocou desde que você saiu da sala.
– É… Então… Bem, foi só por precaução, sabe. O Dr. Graça é muito meticuloso nas suas ordens, né?
– Sem dúvida.
Seguiu-se outro silêncio breve e Dona Rosa finalizou:
– Há alguma coisa mais, Silas?
– Não, não, está tudo certo. Bem, eu vou indo. Obrigado D. Rosa.
Silas retirou-se com uma estranha e sombria sensação.
“E agora, prá quem eu vou perguntar”? Pensou.
Havia um motivo real de preocupação para ele. A repartição, após tantos anos chefiada pelo Dr. Graça era quase uma extensão. da personalidade dele. Discrição, comedimento, parcim6onia. Se ilas não sabia porque o Dr. Graça o mandava para Berlin, ninguém mais deveria saber, e se soubesse não falaria A viagem logo estaria anunciada no mural de avisos e aí mesmo é que ninguém comentaria nada. Ele mesmo sabia que em nenhuma hipótese deveria referir-se a ela. Cercado de dúvidas foi até a sua mesa passando pelas fileiras de funcionários absortos com seus afazeres. Silas sentou-se à sua escrivaninha, suspirou resignado e abriu o envelope, na esperança que fosse encontrar alguma instrução escrita do Dr. Graça lhe revelando o que teria de fazer em Berlin. Havia um cartão desejando boa viagem. “Passaporte”, pensou. “Preciso de um”. Ligou imediatamente para o departamento de pessoal. Foi tudo muito rápido. Lá, eles já estavam de so0reaviso, de modo que, antes do fim do dia ‘Silas já havia cumprido toda a burocracia necessária.
à noite, em casa, tendo pensamentos cada vez mais soturnos, comunicou à sua mulher:
– Vou viajar Sexta-feira, por uma semana. Um serviço para o Dr. Graça, ele mesmo me ordenou pessoalmente.
Não precisava falar mais nada. Antônia, depois de tantos anos, também absorvera o modo da repartição, que se imiscuía na intimidade da família de tal forma ·que mesmo as crianças manteriam a discrição.
Os dias que precederam a viagem pareciam os mesmos de sempre, exceto Íla inquietação contida de Silas.
O que faria em Berlin?
As respostas possíveis, como num moto próprio, foram surgindo, se misturando e se transformando a cada hora, dando a Silas, cada vez mais, a certeza de que se tratava de algo tão importante que nem mesmo o Dr. Graça ousara mencionar.
“Deve ser algo lá de cima, maior do que o próprio Dr. Graça”, logo, raciocinou, se fora escolhido era porque tinha méritos. Isto aumentava sua responsabilidade e por consequência sua inquietude.
Teve uma inspiração, na Quarta-feira, ao final do expediente. “Claro, que estúpido fui. As instruções me serão dadas em Berlin. É uma missão confidencial e qualquer vazamento pode pô-la a perder-se
“Sentado à sua mesa, sorriu disfarçadamente enquanto fitava seus colegas.
Sentiu-se distinguido do conjunto amorfo de funcionários que o rodeavam. Fora ,escolhido pelo próprio Dr. Graça. r
Este pensamento o fez refletir que, com certeza, o Dr. Graça o tinha em alta conta. “Que responsabilidade. Tenho de estar à altura desta confiança”.
Os pensamentos são vivos e se reproduzem com incrível rapidez quando alimentados com seus ingredientes preferidos. Silas, o eleito, defrontava-se com seu destino. “Muita coisa depende de mim”, pensou, e chegou à conclusão, já dentro do avião, a meio caminho de Berlin que aquela era: “Uma missão ·ultra secreta, cujo fracasso trará consequências nefastas. O Dr.’Graça entregou-a em minhas mãos”.
Silas, após o desembaraço da alfândega de Frankfurt, sentou-se numa cadeira do amplo salão do aeroporto para pôr em ordem seus pensamentos: Que fazer a seguir? A prudência e sua intuição mandaram-no aguardar. E assim o fez, agarrado à sua pasta de mão onde iam todos os seus documentos e dinheiro. Adormeceu.
Quando Silas acordou, sobressaltou-se. Olhou o relógio e percebeu que se esquecera de ajustá-lo ao horário local. Buscou ao redor um relógio público e quando o achou rapidamente acertou o seu. Cochilara por quase meia hora. Levantou-se da cadeira e perscrutou o ambiente, repleto de passageiros. Foi quando se deu conta que sua mala e sua pasta haviam desaparecido. Olhou sofregamente à volta, embaixo da cadeira, deu alguns passos e, de pé, boquiaberto sentiu correr pela sua espinha um frêmito gelado que terminou nos seus cabelos da nuca arrepiados. O choque fora tal que durante a meia hora seguinte Silas, prostrado na cadeira, suou frio, sentiu enjoos e câimbras, até que relembrou suas conjecturas sobre o motivo de sua missão.
“Tenho de manter a calma”, pensava, procurando se autocontrolar. “Tenho de pensar friamente”.
Ora, alguém deveria estar esperando por ele, isto era claro, portanto, restava ·esperar que logo seria encontrado, exceto se… “Como ele saberá que eu sou eu”?
Não havia senha, nem documento de apresentação.
“Um retrato, é claro. Ele tem um retrato meu, enviado pelo Dr. Graça”. Acalmou-se e uma vez que seu contacto o conhecia, Silas resolveu se expor. Postou-se na entrada do aeroporto onde o movimento era maior. Ficou a fitar os rostos tentando adivinhar quem mais se parecia com seu presumível contacto.
“Será homem ou mulher, velho ou jovem”?
As horas passaram e já era noite alta quando nova dúvida lhe ocorreu. “Se o Dr. Graça não quis que eu soubesse do que se tratava esta missão secretíssima, não é lógico que ele distribuísse minha foto por aí. O contato o identificaria através de outro meio. Mas qual?” Temendo que, por erro de raciocínio, estivesse se expondo indevidamente, Silas mudou sua estratégia. Foi esconder-se no banheiro do aeroporto. A câmera de segurança do aeroporto acompanhava Silas que há 12 horas perambulava por ali. No banheiro, Silas, sentado num dos vasos sanitários enfileirados sem qualquer privacidade, pensa na sua insólita situação. Seu suposto contacto perdera-se, ao que tudo indicava. Como reconhece-lo era uma incógnita, mas haveria de ser por algum acidental, alguém interceptara sua contraparte, tentando impedi-lo de cumprir a sua, missão. Silas considerou-se em grande perigo. Era conhecido por eles mas ele mesmo não tinha a menor ideia de quem eram. Ocorreu-lhe, entretanto, que seus opositores não deviam saber que desconhecia o objetivo de sua missão, portanto, ainda tentariam mais coisas contra ele. · ·
“Eles irão se mostrar, não há dúvidas. Devo estar preparado”.
Não permaneceu muito tempo em cada lugar. Circular o máximo possível esta era sua estratégia. O aeroporto o deixava limitado em suas manobras evasivas, mas, por outro lado, lhe dava alguma garantia de segurança, por ser um ambiente público. Sair do aeroporto significaria jogar-se nos braços do inimigo.
O dia já amanhecia quando, exausto, Silas adormeceu num banco do setor de embarque. Não durou muito seu sono pois em menos de um par de horas foi acordado pelo toque da ponta de um cassetete. A figura daquele enorme guarda alemão, com cara de maus bofes, despertou-o do sono agitado e desconfortável, açulando mais ainda sua desconfiança de que era vítima de uma conspiração. Sorte sua que antecipara este momento e havia decidido: “Não vão tirar nada de mim”.
– Vurst vu rer vurderung? Falou-lhe o policial. I
O que estaria dizendo? Seria uma ordem, _uma pergunta ou uma saudação?
– Vumer gung vite aufusgung? Tomou a falar-lhe.
Silas levantou-se vagarosamente e fitou o guarda bem nos olhos. Sua resposta estava ali. Encarava seu destino com coragem e sem reticências. Não falaria nada e suportaria as consequências.
Diante desta atitude o guarda ligou um rádio transmissor portátil e comunicou-se com alguém. Mantinha-se próximo de Silas e fez-lhe um gesto para que sentasse. Silas atendeu-o, e ficou olhando à sua volta na esperança de descobrir alguma coisa que viesse em sua ajuda. Sentia medo, tinha de encarar a realidade. Lembrava-se da família, da repartição e, principalmente, do Dr. Graça. Um misto de angústia e dúvida cobria-lhe o espírito.
“Será que o Dr. Graça não deveria tê-lo alertado e preparado melhor para esta tarefa”? .
Afastou tal pensamento como se fora uma heresia.
“Isto só facilita o trabalho deles de quebrarem o meu moral”.
Talvez tivesse havido alguma falha na organização daquela missão, que pelo visto fora engendrada por setores muito mais importantes do que o Dr. Graça,mas não teria com certeza sido o próprio chefe.
Enquanto avaliava a situação segundo ,seus próprios parâmetros, três policiais aproximaram-se de onde estava e os quatro postaram-se ao seu redor e fizeram-lhe sinal que levantasse. Alguns transeuntes olharam curiosos. Um dos oficiais que parecia mais graduado pois tinha algumas divisas a mais na manga do paletó chegou até a esboçar um sorriso para Silas, no que não foi retribuído. O capitão – assim Silas resolveu chamar o graduado mostrou-lhe que devia pôr as mãos no espaldar da cadeira. ·
“Ah! Vão me revistar, mas não acharão nada. Ainda bem que eliminei qualquer coisa que pudesse me identificar, inclusive as etiquetas das roupas”.
Dito e feito, foi revistado, e na sequência algemado.
“Não há dúvida, fui descoberto e serei preso como espião. Isto pode desencadear um incidente diplomático, portanto tenho de resistir o quanto puder”.
Passou por sua cabeça as cenas dos filmes de guerra que costumava assistir·. Tortura. Era assim que faziam com os espiões. Voltaram as náuseas e o suor frio, que escorara-lhe pelo rosto, enquanto caminhava para fora do aeroporto, escoltado pela polícia. Quando saiu ao relento, o frio e o vento foram demais para ele. Enfraquecido pelo cansaço e pela fome, além do medo, Silas desmaiou.
Voltou a si numa cama, em um pequeno quarto onde havia uma mesa de cabeceira e um biombo escondendo uma pia e uma privada.
“Uma cela. Estou preso”. Viu que haviam trocado sua roupa por um macacão de flanela grossa.
“Roupa de presidiário”.
Percebeu que havia música na cela e em cima da mesinha uma garrafa térmica, copos e uma cesta com biscoitos e bolinhos. Preferiu não tocar nos alimentos, apesar da fome. Sentia-se tonto e confuso. Sentou-se no catre e pensou. Estava preso e incomunicável. O inimigo tinha grande vantagem sobre ele. A missão certamente fracassara, não por sua culpa, é claro, mas talvez eles ainda não soubessem de tudo. Silas percebeu-se como o único elo que ligava a operação com os altos escalões da repartição.
“É claro! eles querem saber quem me mandou, por isso ainda não deram cabo de mim. Se eu falar o nome do Dr. Graça estarei revelando as conexões da trama. É isto que eles não sabem, que o Dr. Graça é o cérebro por trás de tudo”.
Reviu sua decisão de não comer e mesmo temendo que pudessem ter envenenado a comida, raciocinou que para eles era melhor mantê-lo vivo, para poderem obter aquela crucial informação. A vida de Silas dependia do seu silêncio.
Não soube precisar bem quanto tempo passara quando recebeu a visita de um oficial que com certeza era do serviço secreto, pois estava a paisana. Mostrou-se­ lhe simpático, ofereceu-lhe cigarros, mais comida e roupas limpas.
“Muito esperto”, pensava Silas, enquanto se mantinha em silêncio, ”mas eu sou macaco velho. Você não pode me comprar com ninharias. Estou preparado para o pior , se for para defender o nome da minha repartição e a integridade do Dr. Graça”.
A visita retirou-se e durante um tempo, que não podia precisar quanto, Silas foi alimentado e cuidado com cortesia. Tiraram-lhe as impressões digitais e o fotografaram. Era óbvio que iria ser julgado. Um julgamento secreto e sumário. O medo ainda lhe acompanhava, em surtos agora, pois não houvera ameaças físicas. Seria isto uma tática para enfraquecer sua determinação?
Ficou atento às mudanças no comportamento de seus carcereiros buscando alguma pista. Não demorou muito para ter certeza sobre suas conjecturas. Mandaram uma mulher para falar com ele. Belíssima.
”Estão tentando me seduzir. Usam o sexo para obter o que querem. Tenho· de reconhecer que são eficientes. Esta lourar é gostosíssima”.
-Parlivufranz? Palitalin? Ablispani? Fal portúguize? Ispiqingliche? Silas reconheceu uma das frases, mas manteve-se silente.
“Muito sagaz. Observam para ver a qual frase reajo. Têm de fazer melhor do que isto. Esta alemã é realmente muito boa.”.
Silas lamentou a retirada de Brigite, como passou a designá-la mas
percebeu que ganhava tempo e que seu silêncio era uma pequena vitória. A estratégia deles para desvendar sua identidade foi incrementada naquela noite quando lhe deram jornais e revistas de vários países.
“Será noite? Será dia? Há quanto tempo estou preso?” Perguntava-se Silas enquanto folheava algumas revistas de diferentes línguas, com o intuito de “confundir” seus algozes.
“O Dr. Graça, a esta altura já deve saber que algo correra errado. Já fazem três dias que estou preso, pois foi o número de cagadas que dei. Meu intestino é um relógio. Certamente algum esquema de emergência teria sido acionado e estão à minha procura. Conhecendo o Dr. Graça, como o conheço”, Silas continuou pensando orgulhosamente, “estão preparando uma ação de resgate. Ele sabe que pode contar comigo”.
Os carcereiros esforçavam-se para obter qualquer informação, mas já davam sinais de impaciência. Silas preocupou-se quando um médico veio examiná- lo. Colheram seu sangue. O médico, Dr. Fritz, como Silas o chamou, tentou conversar, mas era inútil. Silas não falaria. ·
Exercitando tenazmente sua autoconfiança, no entanto, Silas dava sinais de insegurança. Seu ritmo intestinal não parecia muito bom. Dormiu mal no quarto dia na cela. Seria o quinto? Teve pesadelos, o que fugia totalmente aos seus hábitos. Na noite do quinto ou sexto dia teve uma crise de choro: Ele pôde, entretanto, abafar os sons com o travesseiro. Pensou seriamente em capitular, mas sua fidelidade profissional o fez se recompor. Pensou: “Jamais darei este vexame para o Dr. Graça, e a minha família, é claro”. Repassou pela enésima vez cada minuto de sua vida na última semana, buscando uma explicação lógica para o seu infortúnio. Descobria nuances na situação. “Saberia o Dr. Graça que isto poderia acontecer?”
Sim, porque a possibilidade que algo ocorresse sem o conhecimento dele é simplesmente impensável.
“Sim, o Dr. Graça sabia que eu seria preso, logo, nunca houve ninguém para encontrar-se comigo. Porque me mandou para o sacrifício? Punir-me? Não!
O Dr. Graça é severo, mas justo, jamais faria isto. Ademais, eu sou um funcionário com uma ficha de serviço impecável. Ele reconhece isto, não deixaria que me prendessem à toa, logo, ele pretendia outra coisa, e sabendo que eu não abriria o bico, só há uma conclusão. Eu servi de isca para desbaratar uma rede de espiões na repartição. Céus! É tão óbvio”!
Tão rápido ia seu raciocínio que mal percebeu que levantara-se da cama e ·rodopiava pela cela balbuciando coisas. Quando se deu por si, calou-se assustado. Pensou: “Microfones, câmeras. Eles podem ter ouvido algo”. Aquietou-se em um canto mas seu cérebro trabalhava febrilmente:
“Pouquíssimas pessoas sabiam do meu objetivo, logo, tendo havido um vazamento eu seria preso, como o fui, logo, por exclusão, o Dr. Graça chegou ao traidor”.
Silas tremeu ao pensar no que deveria estar acontecendo nos altos escalões.
”Eu, só eu, teria a condição de executar este serviço”.
Sentiu tanto orgulho de si mesmo que os olhos marejaram. Sua lógica levou-o mais longe:
”Minha prisão seria legal se eu estivesse com todos os documentos, por isto é que me roubaram, para justificar a detenção e proteger o traidor. Dirão – Oh! Ele não tinha documentos por isso foi detido, só isso. Podem enganar alguns, mas não ao Dr. Graça”.
Silas conjecturava que, sem dúvida, seria resgatado, pois era a testemunha chave da traição. Tais pensamentos aquietaram seu coração e Silas dormiu como um herói. Acordou desmascarado:
– Her Zilas! – Ouviu a voz de Brigite. “Sonhava?” Pensou.
: Her Zilas, por fafor acorde.
Silas estava assustado, havia sido descoberto. Como? Recompôs-se e não respondeu. .
– Her Zilas, o zenhor faz o fafor de dizer se este bolza é zeu?
Silas olhou sua pasta perdida· ser-lhe entregue. Abriu-a. Deveria tê-la aberto? Estaria assim confessando sua identidade? Percebeu ser inútil manter a resistência naqueles termos, pois Brigite lhe entregara seu passaporte:
– O zenhor quer falar alguma coisa?
Após um silêncio prolongado Silas falou: ··
– Esta pasta me foi roubada.
A face de Brigite abriu-se num sorriso, tão bonito que impressionou Silas, mas humilhou-o. Pensou. “Eles são impiedosos com os derrotados. Como nos filmes, mas não estou totalmente vencido”.
– Her Zilas – continuou Brigite, e cada vez mais envolvente e perturbadora – há um ticket com zua folta marcado parra hodje. O zenhor pretende partir?
“Ah! Hipocrisia, falsidade destes canalhas” – pensava- “Como ainda podem perguntar uma coisa destas? ” Mas respondeu: Certamente.
– Zer gut! O gerrenzia do aeroporto pede desculpas aqui neste carta e pede. que aceite esta zoma em dinheirra por compenzazon aos zeus predjuitzos. Zuas roupas serrão devolvidas limpas e um carro o levará ao aeroporto parra o zeu embarque. Lamentamos o incidente zed por questões de zigurranza fomos obrigados a agir azin.
Brigite entregou-lhe as roupas prometidas, o envelope com dinheiro, passaporte, passagem, tudo enfim, menos sua mala de roupas e os dólares que trouxera. Silas pediu para tomar banho e barbear-se, no que foi prontamente atendido. foi-lhe servida uma refeição, a primeira que comia com gosto nos últimos dias.
Dentro do avião, no meio do oceano atlântico, pouco antes de pegar no sono, Silas chegou a uma conclusão:
“Esse Dr. Graça é mesmo poderoso, conseguiu dobrar os alemães.”
No Sábado, pela manhã, ao chegar em casa sem a mala, não precisou dar nenhuma explicação. Passou o fim de semana no tédio habitual. Na segunda, indo para o trabalho, conjecturava se fizera bem em apagar todas as provas de sua viagem, jogando fora inclusive a sua pasta, sapatos e revistado cada milímetro de seu temo. “Algum dispositivo, com certeza eles puseram”.
A chegada à repartição foi igual às outras milhares do passado. O dia transcorreu silencioso e sem novidades. Silas achou poucos processos em sua mesa, pois, como de praxe, quando alguém está ausente, nas raríssimas ocasiões que isto ocorreu, o trabalho é repartido.
No final do expediente foi chamado ao gabinete, por D. Rosa:
– Sr. Silas, o Dr. Graça quer vê-lo imediatamente.
Silas já esperava por isto. Sorriu de si para si. Olhou a massa de funcionários a sua volta:
“Nem fazem idéia “, pensou. Empertigou-se e foi ter com o chefe. Não esperou – “E nem podia”- logo foi encaminhado ao gabinete do Dr., Graça.
Dr. Graça, sentado na sua cadeira de madeira de lei, reforçada para suportar seus 140 quilogramas, não olhou imediatamente para Silas. Lia algo à sua frente.
Silas esperou o momento que antevira e sabia o que deveria falar. Dr. Graça olhou-o finalmente por alguns segundos. Era a pergunta. Silas, com a alma cheia de reconhecimento e orgulho pronunciou sua resposta num tom que ensaiara desde cedo:
– Às ordens, chefe! ·
Dr. Graça devolveu-lhe um olhar que dizia tudo. Fez-se um silêncio que selou aquele diálogo para sempre na memória de Silas, talvez o momento máximo na sua carreira até ali. Dr. Graça, com aquela mesma entonação que Silas já ouvia há vinte anos, disse-lhe, coroando sua glória:
– Agora, você vai para Moscou, Silas.

Maio 1999

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