COLAPSO CANINO

                                                  COLAPSO CANINO
O Tavares era médico e namorava a Cris, não há muito tempo. Eram colegas de trabalho e apesar dos horários conflitantes eles estavam se dando muito bem, inclusive passaram a frequentar as casas da família. A mãe viúva da Cris, Dnª Clara morava nos arredores numa chácara grande e bonita. Era o destino quase certo nos fins de semana do casal, quando se desvencilhavam dos plantões do hospital. Tavares estava entusiasmado com o romance dando certo, mas, havia um fato que o deixava ressabiado. A Cris era apaixonada por cachorros e o Tavares morria de medo deles, principalmente porque sua namorada preferia as raças grandes de canídeos. E ela criava seis deles no sítio da mãe. Eram da raça “doberman”, mal encarados e na opinião do Tavares, hostis a ele No princípio a Cris os mantinha presos quando o Tavares estava presente, mas na continuidade do namoro e já o Tavares pernoitando na casa e praticamente vivendo conjugalmente, ela foi liberando a cachorrada no ambiente.
– “Só por amor mesmo” pensava o Tavares vendo aqueles monstros circularem ao seu redor. O médico desenvolveu estratégias para manter a calma das feras e uma delas, criticada efusivamente pela namorada, era ao chegar no sítio, à porta, quando os cães surgiam no portão, distribuir vários pacotes de banana passa à matilha. Tinha um efeito mágico, mas não duradouro pois ao longo do dia eles rodeavam o Tavares em busca de mais “bananadas” Não interferia no romance deles, mas também não favorecia a intimidade do namoro visto que Tavares percebera uma certa contrariedade das bestas quando ele acariciava a namorada. Às vezes um olhar de alerta, às vezes um rosnar discreto, mas nunca passava incólume o queixume ciumento dos animais. Aos poucos o Tavares foi entendendo os humores da bicharada e havia um deles que não escondia sua antipatia pelo médico. Era um enorme Doberman com o singelo nome de Samba. Ele não desgrudava da Cris e emitia inequívocos sinais de desapreço pelo Tavares. A namorada ria dos escrúpulos do médico chegando mesmo a afirmar que o namorado era um ‘cagão”. o que não o ofendia mas também não via graça alguma por ser parcialmente verdade.
A casa com amplo tereno possuía uma piscina com água natural vinda de mananciais da serra próxima e, com frequência a família e amigos faziam celebrações ao redor dela, com a inefável presença dos cachorros e para temor do Tavares do intimidante “Samba”. O que era uma antipatia animal foi se transformando numa raiva sem sentido e por fim, Tavares teve de admitir que odiava aquele ente. Não revelou isto à namorada porque de certo modo sentia-se um tanto culpado por este sentimento mesquinho, mas não podia eixar de senti-lo. Para apaziguar sua culpa resolveu ser mais afetuoso com o cão e seguidamente brincava de atirar objetos para que ele buscasse. Parecia estar dando certo.
Num certo momento, à beira da piscina, ele percebeu que o quadrúpede Samba atacava sua própria imagem refletida na superfície da piscina.
“Que estúpido” pensou Tavares.
Quando o Samba, resfolegando, parou um pouco Tavares ligou a mangueira d’água e dirigiu o jorro em direção ao animal. Este imediatamente reagiu tentando morder o fluxo que saía da mangueira. Tavares divertia-se mudando o rumo da torrente fazendo com que Samba rodopiasse incessantemente. Continuou a fazer isso mesmo percebendo que o cão estava ficando com a língua de fora e azulada e com a respiração aumentada. Estava divertido, mas, de repente, o cachorro abriu as patas e desabou, ficando inerte no chão. Tavares era médico e não veterinário, mas imediatamente diagnosticou que o animal tivera um colapso cardíaco. Desfez-se da mangueira e procurou a namorada avisando-a:
– Acho que o samba não está bem.
Seguiram-se cenas de apreensão mental e preocupação. Imediatamente se levou o cão a uma clínica veterinária onde se constatou o óbito.
“Teve um ataque cardíaco”, segundo o veterinário.
Houve uma consternação geral na família inclusive se procederam as exéquias personalizadas, com direito a uma cova no quintal e lápide com nome.
Tavares juntou-se à família nos pêsames, mas nunca revelou as circunstâncias da morte e mantinha o silencio quando Cris afirmava:
-“Era um cão tão saudável, o que teria provocado este colapso cardíaco?”
Por diversos outros motivos terminou o romance de Cris e Tavares e a única lembrança que ficou foi do Samba.

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