AS FILHAS DO DENTISTA

AS FILHAS DO DENTISTA
Em um quarto amplo, quase um salão, jazia no leito o Dr. Barbosa, dentista aposentado. Convalescia de complicações de saúde que o obrigavam a manter-se no leito.
Ele era casado com Dnª Conceição sua prima distante. Tinham quatro filhos, dois homens e duas mulheres, Biu,  o mais velho, Carminha, Rosália e o caçula Antônio, o Toninho.
O Dr. Barbosa sempre teve uma relação difícil com a família devido ao seu gênio irascível e suas atitudes agressivas. Seus filhos homens eram tratados rispidamente lhes sendo exigido um comportamento excessivamente machista. As filhas foram tratadas mais rispidamente ainda, não lhes sendo permitido cultivar amizades e muito menos relacionamentos afetivos
Ele desdenhava   Dnª Conceição, considerando-a uma pessoa a seu serviço, “Afinal é apenas uma mulher” como afirmava.
Com este mesmo pensamento também se referia às filhas,
A família, pode-se dizer, vivera até então sob sua tirania.
Mas, tal conduta trouxe consequências. Ninguém era normal na família.
Dnª Conceição, submissa, guardava uma profunda mágoa do marido e embora racionalmente não admitisse, tinha raiva dele, e remorsos, por isso, muito católica, sublimava tais sentimentos nas preces e na devoção aos santos,. O que não era o caso dos filhos. No geral, todos detestavam o pai.
Rosália, também dentista, assumiu os clientes do pai e ao reorganizar o consultório    descobriu farto material pornográfico   e claras evidências, cartas e fotos, das amantes do pai.  Barbosa era um devasso.
Toninho, o caçula, homossexual assumido e travesti, era, com certeza, o mais revoltado devido as repetidas humilhações que sofrera toda a vida, ressentimento que igualmente nutria pelo irmão, Biu, este mesmo também agastado com o pai.
Biu, não gostava do pai nem do Toninho, e deixava isto bem claro. Era também um crítico mordaz do comportamento das irmãs. Ele só tinha algum apreço pela Dnª Conceição, embora com um certo desdém.
Rosália era uma mulher magoada, principalmente pelas críticas e violências do pai, e talvez por isso, adotou um comportamento socialmente promíscuo. Era frequentadora de clubes noturnos onde buscava parceiros sexuais de ocasião.
Carminha, advogada bem sucedida profissionalmente, tinha um filho de um casamento desfeito. Muito ambiciosa, argentária e cética das relações amorosas. Não odiava o pai tão intensamente quanto os irmãos, mas o desprezava como figura humana.
Neste ambiente Dr. Barbosa adoeceu e tornou-se dependente dos cuidados da família. Ele, imbuído de suas ideias paternalistas e autoritárias continuava tratando inadequadamente a esposa e os filhos e logo, com o agravamento da doença, já mal podendo sair do leito, aterrorizado, viu-se dependente inteiramente deles para as mais comezinhas atividades.
Primeiramente,  eles impediram totalmente que Barbosa recebesse visitas, até mesmo dos familiares, em seguida, bloquearam as comunicações telefônicas e epistolares, em suma, isolaram Barbosa na seu quarto e nem os jornais, a TV ou o rádio lhe era permitido.  Controlaram rigidamente sua dieta e o seu cotidiano. Um a um, ao longo dos dias, postava-se ao pé do leito e desfiava suas queixas, relembrando os piores momentos do relacionamento, inclusive a sua submissa esposa Dnª.  Conceição.
Por fim,  Toninho ou a autodenominada “Lola” totalmente paramentada como travesti, trouxe para apresentar ao pai o namorado – “Meu macho” – como o anunciou. Mas,  não ficou nisso, as irmãs pressionaram e o Dr. Barbosa teve de verbalmente abençoar aquela união.
Biu deixou de visitar o pai pois teria de conviver com Lola e seu namorado que se mudaram para a casa. Dnª Conceição demonstrava estar bem à vontade cuidando da filhas , aí incluindo a Lola e seu marido.
Barbosa foi piorando e logo  morreu, isolado. Ninguém derramou uma lágrima sequer.

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