A INVENÇÃO DA PILHA GRAVITACIONAL
NARRADOR
Iniciamos esta série identificando os personagens à medida em que forem se apresentando. Temos neste primeiro episódio:
Prof. A. Barbeitos: Cientista, físico, matemático, multimilionário que construiu um laboratório privado para desenvolver suas teorias. O laboratório se situa numa das encostas nas montanhas na cidade do Rio de Janeiro.
Robertinho Brown: Matemático autodidata que auxilia no desenvolvimento das teorias do Prof. Barbeitos
Alberto Rudiney: Gênio da computação de sistemas cibernéticos e matemático que trabalha para o Prof. Barbeitos.
Arnaldo Cravo: Jornalista, locutor, publicitário, responsável pelo plano de divulgação da pilha.
Drª Flávia Romana: Voluntária consultora jurídica do laboratório.
1ª PARTE
A INVENÇÃO
SONOPLASTIA Música tema sons de pássaros, barulho de pessoas ajuntando-se ao redor de uma mesa. NARRADOR: Numa mansão no meio da floresta, nas belas encostas da cidade do Rio de Janeiro, fica a residência e laboratório do Professor A. Barbeitos. Junto com seus colaboradores e amigos Robertinho Brown, um extraordinário matemático autodidata e Alberto Rudiney, um jovem gênio dos computadores, pesquisavam física da gravidade. O Prof. Barbeitos é um físico e matemático que se afastou do meio acadêmico devido à rejeição de suas excêntricas teorias. Era multimilionário por herança familiar e decidira construir seu próprio laboratório de pesquisas. Há décadas que fazia experimentos sobre a gravidade. Até que em determinado experimento obteve sucesso em controlar a gravidade, conseguindo induzir uma corrente elétrica usando o equipamento gravitacional inventado por ele ao qual denominara de “pilha gravitacional, ou gravipilha”. Como o próprio Prof. Barbeitos descreveu num vídeo preparado para ser divulgado nos meios de comunicação de massa.
SONOPLASTIA: Música tema, chiado de estática e voz de transmissão de rádio:
NARRADOR:
O professor e seus auxiliares no auditório do laboratório defronte a uma tela grande, assistiram a gravação. O Prof. Barbeitos, após os créditos do vídeo explica o que era, como fora descoberta e quais as propriedades da “pilha gravitacional.
SONOPLASTIA: Sons do acionamento do projetor e voz apresentando o vídeo.
“Caro amigos, que nos ouvem e assistem.
Hoje apresenta-se a vocês uma invenção, que irá transformar o mundo: a pilha gravitacional. De que se trata?
É um dispositivo que direciona as ondas gravitacionais num determinado meio, por exemplo um circuito de fios, atraindo os elétrons e gerando uma corrente de fluxo contínuo e controlável.
O dispositivo aplica uma propriedade cristalográfica do quartzo que numa configuração peculiar tem este efeito. Usando em série estas configurações pode-se regular a quantidade, intensidade e direção das ondas gravitacionais. Por esta razão tal dispositivo não necessita de uma fonte adicional externa de energia, ela é fornecida pela captura da gravidade adjacente.
Como se pode ver é um objeto não muito maior do que um telefone móvel. Vou, a seguir descrever suas funções:
SONOPLASTIA: música incidental se esvanecendo e voz subindo
Substitui a geração de eletricidade pelos meios conhecidos, ou seja, hidroelétricas, termoelétricas e todas demais. Uma única pilha pode suprir de energia uma quantidade quase ilimitada de equipamentos, incluindo veículos automotores, motores fabris e redes de distribuição de energia.
Seu custo é baixo pois os cristais de quartzo são abundantes e a preparação dos cristais nas configurações específicas é uma técnica dominada.
Os circuitos atuais dos computadores serão substituídos pelas configurações cristalográficas e terão velocidade e capacidade de memória ilimitadas.
Desde já, há alguns milhares de pilhas disponíveis com suas instruções de uso.
Nas instruções veiculadas de livre acesso a todos se mostra como usar as pilhas e em breve qualquer pessoa poderá ter a sua própria.
As pilhas têm independência da rede internet e não precisam de baterias para lhes dar energia. Esta é gerada pela própria pilha usando a gravidade ao redor. Quando houver pilhas suficientes distribuídas e todos aprenderem a usá-las paulatinamente se abandonará a rede internet substituída pela tecnologia gravitacional sem precisar de antenas, repetidores ou modens.
Obrigado pela atenção e tenham um bom-dia.
SONOPLASTIA: Retorna a música tema (samba do avião),
PROF. BARBEITOS:
Qual a opinião de vocês. O vídeo está bom? Pode ser divulgado? Está claro?
ALBERTO RUDINEY:
Parece uma mensagem oficial do governo. Muito formal. Acho que devemos falar menos e mostrar mais. Mostrar como se utiliza na prática a pilha. Nos aparelhos domésticos, na iluminação das residências, nos motores industriais etc. E mostrar como se pode obter a pilha.
ROBERTINHO BROWN:
Concordo com o Rudiney. Precisa mais dinamismo.
PROF. BARBEITOS:
Humm… Vocês têm razão. Não somos profissionais dessa área. A quem podemos apelar?
NARRADOR:
Todos concordaram em buscar ajuda com pessoas confiáveis
ALBERTO RUDINEY
O tamanho da invenção e seu provável impacto na sociedade não está claro. Fica parecendo a oferta da lâmpada de Aladim. Também é pouco elucidativa a explicação dos princípios do funcionamento da pilha. E a oferta de pilhas à granel é pouco confiável porque um instrumento como esse é sempre visto como perigoso. Algo totalmente novo, desconhecido e surpreendente. Quais as intenções de seus inventores? Quem são eles?
Ademais haverá reações vigorosas dos interesses contrariados, caso esta pilha seja universalmente adotada. Desde que instalei a pilha em minha casa o meu relógio medidor do consumo elétrico parou. Creio inclusive que quando a companhia de eletricidade notar a baixa drástica de consumo mandará algum técnico para verificar o que aconteceu. Por isso religuei o circuito parcialmente para que esta queda de consumo não seja notada.
Precisamos mostrar na prática o funcionamento da pilha em residências e locais selecionados, fábricas, mercados e tudo mais.
PROF. BARBEITOS
São boas ideias, principalmente porque poderemos escolher criteriosamente quem receberá o dispositivo. Pessoas e instituições. Entendo que não é algo trivial, e ademais não está sendo patrocinado por nenhuma grande corporação, fora que os meios científicos e acadêmicos estranharão uma tecnologia que não foi inventada por eles. Hoje é muito diferente da época de Edson, Santos Dumont, Graham Bell e outros. Memo assim não foram poucas as reações contrárias ao uso da eletricidade, por exemplo, mas temos de difundir esta tecnologia aos poucos e com cuidado.
ROBERTINHO BROWN
Há algum precedente histórico?
PROF. BARBEITOS
Não me recordo. Todas as grandes transformações científicas foram de certo modo abruptas, como por exemplo a nuclear, no entanto, hoje é diferente do passado. Muita coisa vai sendo absorvida pouco a pouco, como o uso dos raios laser.
Em resumo, vamos distribuir a pilha para pessoas escolhidas e veremos como a coisa funciona. Para isso em primeiro lugar temos de selecioná-las. usando algum critério.
Estamos todos de acordo? Então, mãos à obra.
SONOPLASTIA.
Música tema, vozes de fundo, desvanecendo seguido da voz do narrador
NARRADOR:
Nos meses seguintes o grupo foi ampliado com colaboradores selecionados criteriosamente, treinados e contratados pelo laboratório do Prof. Barbeitos.
Dentre elas a Drª Flávia Romana, advogada e especialista em direito empresarial e público, patentes e outras coisas. Ela, após alguns meses de estudos sobre a “pilha”, num encontro seminal do grupo deu seu parecer, ouçamos a Drª Flávia::
SONOPLASTIA.
Música tema, vozes de fundo, desvanecendo seguido da voz da Drª Flávia Romana.
DRª FLÁVIA ROMANA:
Pudemos verificar na legislação, e agradeço a colaboração dos consultores jurídicos, que realmente haverá dificuldades a serem enfrentadas. E posso explicar melhor.
Bem, qualquer sistema de geração ou fornecimento de eletricidade residencial, comercial ou industrial precisa ser autorizado pelas leis e normas constituídas. A pilha gravitacional não se enquadra em nenhuma categoria existente. Não é geração hídrica, fotovoltaica, solar, eólica, térmica ou nuclear. As circunstâncias relativas à segurança das instalações que precisam ser atendidas também não se referem à pilha gravitacional já que seu princípio de funcionamento é totalmente inovador, sem precedentes na literatura científica e técnica. Não existe, exceto no âmbito deste laboratório de gravidade, qualquer metodologia para aferir a funcionalidade e segurança da pilha gravitacional. Desta forma não é possível proibir sua utilização exceto por precaução, ou seja, se não se conhece como funciona não se deve utilizá-la até que seja estabelecida sua segurança. Mas, não há parâmetro atualmente para se julgar isto, logo, tendo em vista que a pilha não interfere diretamente nos sistemas de produção, distribuição e utilização da eletricidade, apenas serve para economizar energia, não há por que se impedir seu uso. Devemos apenas ficar alerta para as alegações de perigo do uso e furto de energia, que certamente ocorrerão. Assim que se depararem com tais problemas devemos ser imediatamente informados para tomarmos as necessárias medidas judiciais de proteção. kSe forem instados a não utilizarem a pilha, não devem reagir, mas interromper imediatamente a atividade. Igualmente se uma pilha for apreendida, não se deve interpor qualquer resistência.
ALBERTO RUDINEY:
Apenas para esclarecer que por se tratar de uma tecnologia tão nova e revolucionária dificilmente os cientistas e técnicos atuais terão condições de entendê-la imediatamente.
DRª FLÁVIA ROMANA
Justamente por este aspecto deve-se ter em mente que a sociedade atual está totalmente baseada na produção de energia pelos meios tradicionais e grandes interesses econômicos estão envolvidos. Por exemplo, com a aplicação das “pilhas” aos veículos automotores o consumo de combustíveis fósseis será drasticamente diminuído o que abalará muito os lucros das grandes indústrias petrolíferas. As repercussões financeiras e políticas são quase inimagináveis. Se acrescentarmos o impacto na produção da energia elétrica teremos uma crise monumental no mundo dos negócios.
PROF. BARBEITOS
Eu imaginava um cenário conturbado, mas o que a Drª Flávia nos mostra é algo inusitado na história. Acho que devemos ser realmente muito cautelosos
NARRADOR:
Numa parte do terreno da mansão foram rapidamente instalados contêineres adaptados como escritórios, salas de aula e auditórios onde este grupo funcionava. Eles identificavam os futuros usuários da pilha, os contatavam e explicavam minuciosamente seu funcionamento e seguido de um treinamento de seus usos então tinham acesso à pilha. Depois de alguns meses já havia um número significativo de usuários e algumas residências que receberam gravipilhas, como passaram a ser chamadas, chegando à casa de dezenas. Eram realizadas diversas reuniões virtuais e presenciais com os colaboradores, quando se avaliava o desempenho do artefato. Paralelamente uma rede de conexão virtual usando as ondas gravitacionais ia se estabelecendo substituindo a internet por cabo ou rádio. Tudo era administrado em absoluto sigilo. Os participantes faziam um juramento de confidencialidade, à parte que, só eram escolhidas pessoas consideradas absolutamente confiáveis pelo grupo original do Prof. Barbeitos. Numa dessas reuniões
SONOPLASTIA.
Música tema, vozes de fundo, desvanecendo seguido da voz
ALBERTO RUDINEY
Como vocês sabem criamos a gravirede. Todas as funcionalidades da internet estão disponíveis e adicionalmente as propriedades da gravirede, cujas principais são: a quase infinita capacidade de memória e a extraordinária velocidade de operação. Estamos a postos 24 h dando apoio à experiência. Obviamente surgiram notícias e a curiosidade do povo se aguça. Houve como se esperava uma reação daqueles que se sentem prejudicados, basicamente alguns fornecedores de energia elétrica, gás, petróleo. A avaliação é cotidiana e corrigimos eventuais problemas advindos. Alguma pergunta?
ALGUÉM DA PLATEIA:
Eu tenho uma padaria e uso energia elétrica direto. Minha conta é muito alta. Mesmo mantendo algum consumo, para não despertar suspeitas da companhia elétrica, em algum momento ficou evidente que havia algo diferente acontecendo. Me perguntam como gasto tão pouca eletricidade. Isto atraiu a atenção da companhia elétrica que já veio inspecionar a instalação. Pois, a pilha não pode ser considerada como um artefato ilegal? Quero dizer, não autorizado oficialmente? Isto não pode ser entendido como uma contravenção ou crime?
SONOPLASTIA: Sons de vozes, burburinho
PROF. BARBEITOS
A intenção é que a gravipilha se torne um fato irreversível e benéfico ao bem-estar da sociedade sem arriscar que sirva para outros propósitos.
SONOPLASTIA: Sons de vozes, burburinho, Hurras e vivas dos presentes.
FIM DA 1ª PARTE.
2ª PARTE
A DISTRIBUIÇÃO DA GRAVIPILHA
ARNALDO CRAVO: jornalista veterano amigo de longa data do Prof. Barbeitos e contratado como relações públicas do Laboratório do Prof. Barbeitos.
DR. ALTINO FLORES Diretor-Presidente da COFEL- COMPANHIA FLUMINENSE DE ELETRICIDADE
CARLOTA MUNHOZ engenheira-chefe de pesquisa da COFEL
CRESCÊNCIO ANTÔNIO Chefe da Consultoria jurídica da COFEL
INSPETOR DRUMOND chefe da segurança da COFEL
DEPUTADO CÉZINHA DE ASSIS presidente da Comissão de Energia do parlamento
DIRETOR DA FLUMIPETRO Empresa Fluminense de Petróleo
SONOPLASTIA: Música tema em descendo
NARRADOR:
Dois anos se passaram desde que a equipe do Prof. Barbeitos começou a aplicar o plano de distribuição das gravipilha pela cidade. Escolheram os bairros mais pobres e favelas, bem como o pequeno comércio local e as oficinas de reparos mecânicos e industriais. O uso controlado das gravipilha pelo laboratório se espalhou nesses locais. E eram permanentemente avaliados pelo Prof. Barbeitos e sua equipe, reunidos no que passou a se chamar de Coletivo do Laboratório ou simplesmente “COLETIVO”:
PROF. BARBEITOS:
Vejam estes dados na projeção. Temos quase 2000 residências supridas pela gravipilha além de outras milhares de lojas e oficinas. São basicamente famílias de baixa renda que estão se beneficiando. Tudo isso cadastrado e controlado por nossos programas na gravirede. É um sucesso. Praticamente não tivemos qualquer problema sério nas instalações e uso além daqueles que esperávamos dada a novidade do uso. Os acidentes são leves e reparáveis e praticamente deixaram de acontecer nos últimos 3 meses
ARNALDO CRAVO:
Vocês podem ver nos relatórios o tremendo sucesso das gravipilhas, mas como esperávamos, houve reações importantes das quais devemos nos acautelar.
UM DO COLETIVO:
A distribuidora de eletricidade tem colocado seus agentes permanentemente fiscalizando as casas e lojas.
OUTRO DO COLETIVO:
Os distribuidores de gás também estão do mesmo jeito, sendo que estes são mais agressivos pois há um grande número deles clandestinos
MAIS OUTRA VOZ DO COLETIVO:
Aliás, este é um problema sério pois o crime organizado nestas comunidades tem se mostrado bem agressivo, intimidando as famílias e até invadindo as casas e roubando as gravipilhas. Sempre querem saber onde elas foram obtidas e ameaçando que se as encontrarem nas residências vai haver punição.
SONOPLASTIA:
Burburinho na plateia que vai em decrescendo
VOZ DO COLETIVO:
Muitos de nós temos sido ameaçados até fisicamente e quando denunciamos à polícia, raramente somos levados em conta. Quando não são os milicianos são os fiscais da Companhia de eletricidade e agora até os fiscais da prefeitura. Como podemos nos livrar disso? As famílias não querem abrir mão da pilha, mas também não querem ser ameaçadas.
SONOPLASTIA:
Burburinho na plateia que vai em decrescendo
ARNALDO CRAVO:
Nós temos identificado de onde partem as ameaças pela gravirede, que como vocês sabem, pode interferir na rede telefônica, por isso como primeira medida aconselho só usarem a gravirede que foi instalada em suas gravipilhas. Desta forma eles não poderão monitorá-los e nós podemos ouvir a conversa deles. Pois, temos o mapa detalhado destes infratores e sabemos inclusive quem da polícia está mancomunada com eles. O Rudiney pode explicar melhor a estratégia que usaremos para contornar este problema.
ALBERTO RUDINEY:
Prezados. Vocês devem se lembrar de reuniões passadas onde tal assunto foi ventilado, pois, desde então procuramos uma solução.
O que percebemos é que as milícias, a companhia elétrica e outros interessados concluíram que o problema era a própria pilha gravitacional, ou seja, um aparelho que cria tal problema. Por isso buscam interferir na instalação da gravipilha e até mesmo confiscá-la. No entanto eles não entendem exatamente como ela funciona, isto é, de que maneira ela gera eletricidade e é distribuída.
Eles e praticamente todo o mundo não conhecem a física por trás de tudo isso, mas gracejos fora, a verdade é que se os milicianos e fornecedores de energia se preocupam com a diminuição de seus lucros e tentam de toda forma impedir o uso da pilha, as grandes empresas começam a se preocupar. Temos tido acesso a inúmeras conversas entre as grandes empresas de energia, principalmente fora de nossa cidade indagando aos engenheiros, técnicos e cientistas o que está ocorrendo no Rio de Janeiro.
Desta forma estamos adotando a distribuição de energia sem a necessidade da pilha ou de instalações específicas, naqueles domicílios cadastrados e já acostumados ao seu uso. Esta forma de distribuição será a principal, a partir de agora, mas vocês devem manter suas pilhas para comunicação e outras aplicações.
SONOPLASTIA:
Vozerio na plateia
VOZ NA PLATEIA:
Eles verão que continuamos com energia. Irão buscar a pilha de qualquer maneira e mesmo que as encontrem continuaremos a ter energia?
ALBERTO RUDINEY:
Exatamente. Para impedir que sua casa tenha luz mesmo que retirem toda fiação vocês ainda poderão usar os equipamentos elétricos. As empresas oficiais de energia não poderão fazer nada pois desconhecem as aplicações da gravipilha e as milícias menos ainda, no entanto eles poderão partir para a pura e simples extorsão. A Drª Flávia Romana pode esclarecer melhor o assunto e, vocês podem ler sobre esta função da gravipilha na nossa página.
DRª FLÁVIA ROMANA:
Bom dia a todos. Estamos muito atentos a todos estes movimentos decorrentes da adoção da gravipilha, não só nos meios oficiais como nas milícias. Com a gravipilha acoplada na Internet temos a facilidade de acessar as conversas telefônicas de qualquer um. Sei que do ponto de vista legal isso é crime de violação da privacidade e que deveríamos obter uma autorização judicial, mas por ser algo tão novo não há como enquadrar a gravipilha em nenhum artigo do código civil ou penal. Primeiro o controle gravitacional teria de ser reconhecido em todos os seus aspectos e depois se discutiria os usos e restrições pertinentes, mas como não existe isso, não será ilegal qualquer que seja o uso da pilha gravitacional, ressalvados os possíveis danos físicos ou morais o que também não está estabelecido. Isto não tira nossa responsabilidade pela utilização do invento. Embora não se possa culpar Santos Dumont pelo uso da invenção do avião como arma, quem assim a utilizou é responsável pelas consequências.
Estabelecemos uma equipe multiprofissional para lhes dar todo apoio técnico-jurídico caso venham a ser importunados oficialmente pelo uso da pilha. Em resumo, mal comparando, se a luz do sol é usada em sua residência obtida diretamente não há como lhe imputar qualquer ilegalidade quanto a isso.
SONOPLASTIA:
Vozerio no ambiente decrescendo. Tema musical subindo e voz do narrador.
NARRADOR:
Enquanto no COLETIVO se seguia discutindo os problemas emergentes, na sede da COFEL- COMPANHIA FLUMINENSE DE ELETRICIDADE, a Diretoria abordava o mais recente assunto crítico da empresa: A diminuição perceptível do fornecimento de energia onde havia gravipilhas. O Diretor-Presidente Engenheiro ALTINO FLORES dirigia-se à Diretoria e aos acionistas da empresa:
SONOPLASTIA:
Música tema seguido de silêncio e palmas do auditório
DR. ALTINO FLORES:
Obrigado, primeiramente pela presença de vocês nesta importantíssima reunião.
Vocês receberam um sumário descrevendo os eventos do último ano e os temas para discussão. Mesmo que lhes pareça estranho o assunto posso asseverar-lhes que talvez seja a crise com possíveis maiores consequências que o setor enfrenta e que tende a se agravar caso não tomemos alguma medida corretiva adequada. Mas para lhes dar uma perspectiva mais técnica e realista convidamos a Drª. Carlota Munhoz, engenheira-chefe de pesquisa da COFEL e o Dr. Crescêncio Antônio para nos esclarecer sobre tão importante assunto.
SONOPLASTIA:
Música tema crescendo com vozes ao fundo e diminuindo com o narrador
NARRADOR:
Durante mais de uma hora os palestrantes tentaram explicar o que não sabiam deixando a audiência confusa. As intervenções dos acionistas e dirigentes da COFEL eram eivadas de um certo desespero até que um deles falou:
ACIONISTA: falando do auditório
Até agora não ficou claro o que exatamente está acontecendo. Vocês falam em um artefato clandestino que substitui a energia do sistema, mas não dizem como isto ocorre, nem o que se faz para detectá-lo. Tanto a empresa quanto o governo parecem não saber tratar o assunto. Tampouco apresentam exemplos internacionais. Isto é um caso brasileiro? Os cientistas de outros países estão cientes? O certo é que o consumo de energia está caindo e pelo visto não se trata de um desvio clandestino, “gatos” como se diz. E não é só no âmbito da distribuição de eletricidade pois como se sabe também os carros estão sendo adaptados para usarem tal artefato. Afinal o que é isso?
SONOPLASTIA:
Tumulto no auditório, vozerio incessante. A música tema vai crescendo até o Narrador falar:
Levou algum tempo até que o tumulto da plateia se acalmasse. Por fim encerrada a tensa reunião os convidados, na sala particular do Dr. ALTINO FLORES, deram suas opiniões.
ALTINO FLORES
Senhores, temos uma grave crise nas mãos. O nosso acionista tocou num ponto crítico. Não sei como vocês estão entendendo a situação, mas da minha parte dou toda razão ao acionista. Confesso que não estou entendendo nada. Quero dizer, que não sei o que fazer no caso e peço a vocês que tragam alguma luz.
CARLOTA MUNHOZ
Consultei todos os colegas acadêmicos que pude e fiz uma extensa pesquisa nas redes internet. Não achei absolutamente nada que nos explicasse o que está acontecendo. Nem na rede nem nos livros. Tudo que temos em mãos é um equipamento de extrema simplicidade que parece absolutamente inerte, apreendido em algumas residências e nem mesmo tem estrutura de uma bateria simples. Testamos o equipamento em laboratórios e não descobrimos nada. É uma placa retangular de cerâmica com a espessura de um telefone celular com o interior contendo tubos capilares, talvez milhares deles recobertos por microscópicos cristais de quartzo. Do ponto de vista do desenho industrial é uma peça única e muito bem feita, mas pelo lado funcional não serve para nada quanto mais para induzir uma corrente elétrica pois ademais é um péssimo condutor.
CRESCÊNCIO ANTÔNIO:
O que estamos presenciando é algo extraordinário que não sabemos explicar … ainda. Fizemos há semanas uma consulta internacional com outras produtoras de energia e tudo que obtivemos foram mais perguntas. De fato, a comunidade científica internacional não crê muito nos nossos relatos, estão convencidos que se trata apenas de pirataria com recursos mais sofisticados. Repassamos esta preocupação aos nossos inspetores e eles em conjunto com os da COFEL procederam a uma inspeção geral criteriosa e detalhada. Fizeram inúmeras apreensões das chamadas “gravipilhas” e isto não redundou em alteração dos padrões declinantes de consumo, o que nos faz concluir que tais equipamentos são inoperantes e apenas desviam nossa atenção da realidade. É mais provável que haja alguma tecnologia nova para furtar eletricidade. É no que focamos no momento.
ALTINO FLORES
Peço ao nosso chefe da segurança da COFEL o inspetor Drumond, que está encarregado das investigações sobre este caso que nos dê sua visão do assunto.
INSPETOR DRUMOND:
Bem lembrado pelo Prof. Rinaldo. Temos um nome importante a investigar que, ao que tudo indica, está por trás desta questão. Esta pessoa é o Prof. Arlindo Barbeitos que foi professor na Universidade Federal há mais de vinte anos atrás. Pediu demissão e desapareceu. Ainda na Universidade publicou alguns artigos tratando sobre a gravidade, mas foi considerado uma espécie de professor maluco e não era levado muito em conta. Há mesmo um relato à época, de altercações agressivas entre ele e alguns cientistas, e ameaças vagas de ambas as partes. Mas não há registro do fato. Poucos se lembram dele. Apenas um fato interessante é que ele é multimilionário por herança. Não encontramos seu endereço e não temos acesso às suas contas bancárias, cartões de crédito e suas despesas. Não há registro de telefone em seu nome. As taxas públicas e impostos referentes às suas propriedade e fortuna, que me creiam são imensas, dentro e fora do país, estão pagas e são legais.
Temos informações de que ele e seus comparsas vêm aliciando pessoas e famílias para usarem a famigerada “pilha gravitacional”. Identificamos algumas pessoas estreitamente ligadas ao Prof. Barbeitos que parecem constituir o núcleo desta, diria, organização. No entanto depois de exaustiva investigação sobre eles não obtivemos nenhuma pista sobre comportamentos criminosos. Eles provavelmente se reúnem em local ainda não sabido, e não obtivemos qualquer registro físico do teor destas reuniões. Aparentemente usam uma rede de comunicação própria independente da internet ou qualquer outro tipo conhecido de conexão usando ao que tudo indica as tais gravipilhas.
Isto se aplica não só à comunicação, mas também, e principalmente à produção de energia.
Na minha opinião trata-se de um tipo inédito de produção de energia e comunicação nas não temos a menor ideia do que seja. Creio também que seu uso só aumentará pois não há qualquer empecilho legal quanto ao seu uso. Mal comparando é como usar a luz solar. É para todos, abundante e gratuita.
NARRADOR:
música tema. Aumentando e diminuindo
A reunião foi melancolicamente encerrada sem que nenhuma resolução fosse tomada.
Os dias passavam e o assunto das gravipilhas tinha cada vez mais repercussão. O grupo atuante recrutado pelo Prof. Barbeitos tornou-se cada vez mais arredio. Houve pouquíssimos recrutamentos desde as reuniões tanto dos portadores da gravipilha quanto das empresas diretamente afetadas. Por outro lado, as preocupações das empresas só aumentavam. Aqui e ali, o consumo de energia caía drasticamente em várias empresas e bairros. O mesmo ocorria com os combustíveis, entretanto, parecia um problema local na cidade. As instituições ou pessoas que se beneficiavam das gravipilhas adotaram postura prudente não cortando diretamente o seu consumo, mas estavam sendo bastante vigiadas.
Música tema. Aumentando e diminuindo
Numa outra reunião conjunta das empresas produtoras de energia elétrica, derivados do petróleo e gás, os especialistas, acionistas e advogados discutiam o assunto com grande tensão.
Música tema. Aumentando e diminuindo
DIRETOR DA FLUMIPETRO:
Vemos este episódio com grande preocupação. E não apenas nós, mas nossas matrizes internacionais nos têm convocado para explicar o que está acontecendo, e sei que outras empresas que inclusive estão aqui representadas vêm se inteirando do problema. E a grande questão é saber exatamente o que enfrentamos. Que invenção é esta? Como funciona? Quem a inventou? Em que mãos está? O que nos reserva o futuro?
Passo a palavra para o Deputado Cezinha de Assis que preside a Comissão de Energia do parlamento para que nos atualize sobre o impacto destes fatos no legislativo nacional.
DEPUTADO CEZINHA DE ASSIS
Caros senhores, serei direto, trata-se obviamente de uma luta comercial na qual forças ainda ignotas tentam deslocar o empresariado nacional para obter a primazia dos negócios de energia. Disso eu, e meus colegas do congresso não temos dúvidas. Solicitamos ao governo imediata intervenção para identificar e deter estes verdadeiros terroristas que ameaçam de forma ignóbil as nossas instituições e aí englobo não só os empresários privados como o aparato estatal envolvido. Não descarto a intervenção estrangeira neste assunto. Os nossos melhores cientistas e peritos não explicam os fatos e apontam que tal ameaça pode estar vindo de fora. Não descartamos o uso de alguma tecnologia secreta sendo usada em nossa terra. A polícia federal já está investigando os fatos e creio que o Inspetor Drumond, já conhecido por todos tem mais informações a respeito.
INSPETOR DRUMOND:
Como já informamos, temos um suspeito, o Prof. Arlindo Barbeitos cujos dados estão no relatório entregue a vocês. Estamos investigando o grupo que ele aliciou para divulgar a tal “pilha gravitacional”, de sua invenção, à qual quase nada sabemos e que ao ser examinada não apresentou qualquer funcionalidade. Isto nos fez desconfiar que é um artefato inócuo, servindo apenas como “isca” diversionista da verdadeira atuação do grupo. Não sabemos a quem tal professor está representando, mas vários serviços de inteligência de outros países não identificaram nada parecido em suas fronteiras e não há informação de qualquer grupo criminoso por trás disso tudo. Trata-se, portanto, de alguma organização nova, muito bem articulada e com objetivos muito precisos, tomar o mercado mundial de energia, e nós somos uma espécie de cobaia desta organização, ainda desconhecida. Virão nos auxiliar vários agentes internacionais de forma que pretendemos o mais rápido possível identificar tal grupo, prender seus agentes e chefes e esclarecer por fim qual a tecnologia que estão usando. Advirto, no entanto, que este inimigo local deve ser apenas a ponta de lança de uma imensa conspiração que tem a intenção de subverter o mercado mundial..
(Sons de burburinho no auditório e um participante toma a palavra😊
PARTICIPANTE:
O que o Inspetor nos revela é algo que configura uma ameaça iminente. Se é conhecido o conspirador e seus asseclas porque ainda não foram presos?
(Mais agitação no auditório, após alguns minutos o Inspetor retoma a palavra)
INSPETOR DRUMOND:
Se trata realmente de uma situação inusitada. Sabemos o que este grupo faz, distribui a famigerada “pilha gravitacional”. Temos a queda no consumo de energia, mas não há, ainda, como ligar um fato a outro, simplesmente porque não sabemos se esta dita “pilha” funciona ou não. Por isso não temos base jurídica para responsabilizar o Professor nem seu grupo. Na melhor das hipóteses podemos acusá-lo de fraude, aliás, nem isso, porque as “pilhas” não são vendidas.
(uma balbúrdia instala-se no auditório e a sessão é encerrada sem qualquer conclusão).
NARRADOR:
Música tema. Aumentando e diminuindo
A questão da “pilha gravitacional”, porque ela nem seus efeitos existiam fora da cidade do Rio de Janeiro, transformava-se numa quase anedota e um mistério para as autoridades. Como explicar a drástica diminuição do consumo de energia tanto de eletricidade quanto de gás e gasolina pelos apoiadores do prof. Barbeitos se nenhuma outra fonte foi detectada.?
No “bunker” do Prof. Barbeitos, nas encostas das belas montanhas que cercam a cidade o Professor e seus acólitos mais próximos analisavam a situação.
PROF BARBEITOS:
Estou muito preocupado com a situação. Me pergunto se foi prudente termos distribuído a gravipilha. Estou inclinado a interromper esta iniciativa e voltar ao anonimato. Não me parece que a sociedade esteja entendendo o alcance desta invenção.
ALBERTO RUDNEY
Concordo em parte com o Prof., mas não vejo como é possível voltar atrás. A caixa de Pandora foi aberta. É uma questão de curto prazo, para que esta invenção invada o mundo. Seis benefícios são inimagináveis.
ROBERTINHO BROWN
Também suas possibilidades maléficas se caírem em mãos erradas.
Drª FLÁVIA ROMANA
Estão todos certos e todos errados.