O SUGADOR DE PECADOS
Rúsevelte fazia parte de um grupo de estudantes de medicina que visitou o parque do Xingu num programa da universidade voltado para as comunidades indígenas. Não havia um roteiro específico, mas eles tinham de acompanhar as equipes de saúde da FUNAI nos atendimentos nas aldeias.
Talvez porque Rúsevelte tivesse uma ascendência indígena pelo lado materno e fisicamente era indistinguível de uma indígena do Xingu, ela sempre despertava simpatia nas aldeias que visitava. Era frequentemente convidada a participar de atividades típicas das aldeias, banhos de rio, danças, cantorias e visitas às ocas. Rúsevelte não recusava nenhum convite e inclusive participara de uma cerimônia comandada pelo pajé da tribo, na qual fora pintada e ornamentada de acordo com algum ritual e este mesmo pajé a fizera comer uma espécie de paçoca, aliás intragável, e a obrigara a fumar um cachimbo que já ‘percorrera muitas bocas dos presentes. Rúsevelte, no entanto, fez tudo que mandaram com alegria pois sentia que afinal aquele era o seu povo originário.
Seus colegas de faculdade se divertiam com a situação e troçavam de sua recém condição:
Te deram um nome?
Deram sim. É Apô. Para eles eu sou Apô. Se eu entendi quer dizer tamanduá e me disseram muitas coisas, mas meu tradutor não conseguiu me informar quase nada.
E o que é isso que te deram e você carrega no pescoço? Algum amuleto sagrado?
Pois é, acho que é a algo assim, uma espécie de protetor espiritual, mas eu não entendi nada quando tentaram traduzir. Rúsevelte “Apô” recebera do pajé um cordão feito de couro com um saquinho trançado na ponta e dentro dele uma pedra branca, redonda, bem bonita.
Lhe deram muitas recomendações que Apô não compreendeu exceto que deveria usá-la permanentemente e que não deveria entregá-la a ninguém. De resto, não percebeu qualquer propriedade do amuleto, mas via que os índios passaram a respeitá-la mais formalmente
“Bem” conjecturou, “deve ser o efeito de que recebera aquilo diretamente do Pajé. Precisava descobrir que significava aquilo tudo”.
Tais pensamentos e ações ficaram postergadas pois o grupo preparava-se para retornar. Na véspera foram festejados na aldeia e Apô teve um tratamento todo especial. Os colegas afirmavam que ela era a “queridinha” do Pajé. Considerou-se que a aparência de Rúsevelte certamente contribuíra para tanto, ademais do caráter amistoso dela.
Enfim retornaram à cidade e à rotina da faculdade.
Rúsevelte Apô tornara-se uma celebridade na escola. Os vídeos dela nas festas da aldeia, pintada e ornamentada como uma xavante e celebrada pelas vovós “aryia”, guerreiros e pajés circulavam nos celulares. Também pululavam as versões sobre o fato. “Ela foi consagrada a Tupã”, “virou a aprendiz de pajé”,
Muitos colegas lhe pediam dicas na loteria ou que lhes vislumbrasse o futuro.
Rúsevelte “Apô” levava tudo na brincadeira e ria-se dos colegas, mas algo a preocupava.
Passou a usar o amuleto com mais frequência e por fim não se separava dele. Era uma peça de artesanato única e bonita e lhe caía bem. Muitas pessoas elogiavam a peça que era realmente bonita. Desde então, ao se aproximar de certas pessoas, Apô inesperadamente agitava-se. Ficava absorta em pensamentos que lhe acometiam como se tivessem vindo daquela pessoa. Eram sensações por vezes desagradáveis como coisas más que buscassem se revelar. Sentia também uma forte ligação mental com aquela pessoa a ponto de perceber o que ela estava pensando. Tudo muito estranho para Rúsevelte “Apô”. Tais episódios estavam cada vez mais frequentes, no entanto duravam pouquíssimo tempo e desapareciam. Rúsevelte pensara que era alguma idiossincrasia sua e que passaria com o tempo. Mas isto não aconteceu.
E tinha os sonhos, cada vez mais frequentes, com a avó ou mesmo pessoas desconhecidas, todas de características indígenas. Um sonho em particular a impressionou muito; era uma mulher xavante com as pinturas e adornos iguais ao que ela usou na cerimônia na aldeia onde o pajé lhe deu o amuleto. A índia fala algumas palavras em tupi e entrega à Apô o amuleto. Este sonho repetiu-se várias vezes. Ela anotou as palavras em tupi para não as esquecer e procuraria a tradução.
Os episódios de “empatia ou antipatia imediata” como passou a chamar o que sentia ao se aproximar de algumas pessoas não só aumentaram de frequência bem como começavam a adquirir conteúdo. Apô podia, de um certo modo, adivinhar o que as pessoas estavam sentindo e pensando. Achou que era uma impressão ilusória. Mas não. Várias vezes as pessoas falavam e se comportavam como Apô pressentira. Aos poucos aprendeu que podia bloquear tais premonições quando queria.
Mas os efeitos deste tipo de psiquismo peculiar como descrevia para si mesma estenderam-se para o meio profissional.
Apô estava nos últimos anos de aprendizado e já atendia os pacientes sob supervisão da Drª Nazaré, excelente preceptora e titular da enfermaria. Além de excelente médica era uma mulher de meia idade muito bonita e que se tratava adequadamente. Apô a admirava e em especial pelo “charme” que demostrava tanto profissional com pessoalmente. Estava sempre bem vestida e bem humorada e tratava os internos de forma atenciosa.
Mas, quando ela se aproximava, Apô sentia um mal-estar de profunda tristeza e raiva que Drª Nazaré transmitia.
Comentou com Aldo, seu colega de internato:
A Drª Nazaré está sofrendo, eu sinto isso.
Não parece. Ela tem uma vida agitada. Era conhecida como namoradeira.
Como você sabe disso?
Meu tio, que é médico, a conhece desde a faculdade e me contou isso. Ela namorou professores e colegas, alguns deles foram apaixonados por ela, mas ela os destratou de forma cruel.
Isso não é mais uma fofoca?
Talvez, em parte .,, mas o fato é que, dizem, ela destruiu dois casamentos e isto é bem conhecido.
Mesmo assim eu pressinto que ela está à beira de uma crise nervosa.
Tais pressentimentos têm a ver com a Apô mais do que a Rúsevelte?
Olha, você é meu melhor amigo, portanto vou lhe contar.
Apô gostava de Aldo, gostava muito. Ele a mimava e evidentemente gostava dela. Os dois ainda não revelaram tais sentimentos por pura timidez e devido ao calendário exaustivo do internato. No entanto, estavam sempre combinando programas juntos. Os amigos em comum apostavam que cedo ou tarde seria mais um casal na turma.
O que de tão importante você tem para me contar que possa me impressionar, já que praticamente eu conheço tudo a seu respeito.
Quase tudo.
Pois conte-me o que não sei.
Realmente tem a ver com esse amuleto que ganhei no Xingu, mas há uma história passada, que pesquisei com meus tios e avós. Minha família descende de uma índia xavante que casou com um indigenista da FUNAI.
Isto eu já sei.
A novidade é que esta índia era filha de um pajé poderoso. Este Pajé é meu bisavô.
Esta informação é nova, mas não surpreendente.
Pois descobri que o Pajé que comandou a cerimônia onde me deram um nome xavante e o talismã, é sobrinho bisneto do meu bisavô, portanto tecnicamente sou prima dele. Não é surpreendente?
Como fato é revelador, mas não surpreendente visto que seus ancestrais são todos xavantes e da mesma tribo, exceto seu pai que só não era xavante porque nasceu de uma família de São Paulo, descendente de portugueses.
O que me intriga é que quando consegui a tradução da frase que minha ancestral repetia nos sonhos era: “Caminharás ao teu destino”
(Ende t’ere guata te cendara) ou algo semelhante, meu tradutor não foi muito seguro, mas sinto que o significado é este mesmo.
Você tem alguma sugestão do que significa esta frase profética vinda oniricamente direto dos seus ancestrais?
A princípio não me dizia nada, era apenas um sonho repetido e talvez eu tenha rememorado algo que ouvi no Xingu.
Mas…
Sim, mas tem acontecido algo comigo que ao mesmo tempo me amedronta e fascina. Por exemplo, toda vez que a Drª Nazaré se aproxima tenho a sensação de que ela sofre e quase ouço algo como uma súplica.
Isto, amiga, pode ser só uma projeção psicológica sua porque a Drª Nazaré não tem a menor pinta de que está sofrendo qualquer coisa. É uma mulher bonita, independente, rica, profissional brilhante e cheia de admiradores, com uma agenda social repleta.
O que a faria sofrer?
Não sei ainda mas está ficando cada vez mais forte essa impressão. E isso também acontece com outras pessoas, mas aprendi a controlar.
O que você está me dizendo é que desenvolveu alguma capacidade mediúnica., mas devo alertá-la que não há esta especialidade na medicina. Você terá de voltar para a aldeia do Xingu. Mas me diz só por curiosidade, o que você sente quando me aproximo? Ânsias, mal estar, dores?
Nada disso e tenho até um certo temor em revelar.
Ora, não se acanhe comigo.
Eu sinto uma onda de afeto.
Aldo não esperava esta resposta e se preparara para uma réplica atrevida, mas só respondeu.
Nós somos amigos, é natural…
Com esta frase ele de certo modo admitia que Apô estava certa. Ele realmente sentia um enorme afeto por ela.
Não é só afeto de amizade Aldo, é muito mais do que isso, eu diria que é amor.
Aldo ficou estático, ela parecia ter lido sua alma. Aldo estava já há muito tempo apaixonado por Rúsevelte Apô, e nem sabia como responder. Apô continuou:
Eu tenho de lhe dizer que estou profundamente enamorada de você, mas só digo isto agora porque pude sentir que você me retribuirá com o mesmo amor.
Os dois permaneceram em silêncio por um par de minutos antes de darem vazão à paixão e ao desejo que guardavam. Assim decorreu todo o dia.
Os jovens amantes quase esqueceram a hora de comparecer à enfermaria. Se separaram e combinaram se reencontrar à noite na casa dela. Ele tinha a chave.
A Drª Nazaré já estava fazendo a ronda na enfermaria quando, atrasada, Rúsevelte chegou e discretamente se juntou ao grupo, mas sentiu, agora bem forte, vindo da Nazaré, ondas de sensações bastante negativas dentre elas algo muito desesperançoso. Bloqueou o que pôde, mas a Drª buscava aproximar-se dela. Foi assim toda manhã e quando Rúsevelte Apô já se retirava ouviu a Drª Nazaré chamá-la. Soube imediatamente do que se tratava e apesar de um certo constrangimento, lhe veio à mente o que lhe foi dito em sonhos Caminharás ao teu destino” (Ende t’ere guata te cendara) ou algo semelhante. Respondeu ao chamado com um sorriso sincero, mas preocupado.
Sim Drª.
Preciso conversar com você, mas não aqui no Hospital. Te convido para almoçar em outro lugar onde podemos ficar à vontade.
Claro Drª. tenho tempo, só preciso de estar aqui mais tarde.
Ótimo, então vamos.
Rúsevelte pensou se deveria ou não avisar Aldo, por fim deixou-lhe um recado na caixa postal: “Estou almoçando com a Drª Nazaré. Não sei quanto tempo vai durar. Eu aviso quando estiver livre. Beijos, querido”
Chegaram ao restaurante. Luxuoso com um atendimento extraordinário e foram direto para uma mesa mais afastada das outras. Apô viu que a Drª era conhecida no pedaço e que os garçons se desdobravam para agradá-la. Pediram drinks e Apô só acompanhava os pedidos da Drª, enquanto avaliava o que estava captando. Agora a sensação era de tristeza e solidão com um pouco de ressentimento.
-Você deve estar se perguntando porque a convidei, pois não?
Apô não precisava saber, mas concordou.
Não sei como lhe explicar mas nestes dias a tua presença me traz uma certa inquietude, curiosidade e porque não dizer, esperança.
Apô, em silêncio ouviu a Drª Nazaré contar a sua vida com detalhes, inclusive e principalmente os sórdidos, e não eram poucos. Luxúria principalmente, inveja, ira, soberba e mentira. Um caudal extraordinário de pecados.
À medida que ela contava Apô sentia que eles quase se materializavam e eram consumidos de alguma forma que não sabia bem explicar.
A Drª Nazaré levou horas se confessando para uma Apô que tinha plena consciência do seu papel ali e lembrava das palavras proféticas dos sonhos. Era esse seu papel, ouvir os pecados dos outros e eliminá-los misteriosamente.
As ondas de sentimentos vindo da Drª mudaram totalmente, não continham mais tristeza, raiva ou angústia e o comportamento dela exibia isso. Mandou vir champanhe, sobremesas caras e saudou efusivamente Apô.
Menina, não sei o que me levou a convidá-la a vir até aqui e falar tudo que falei e que nuca revelara a ninguém. Lhe agradeço.
Enquanto voltava para casa para encontrar Aldo teve vários sentimentos íntimos sobre si mesma. Ela fora consagrada, não sei pra que ou pra quem, seu primo pajé talvez soubesse e, além do mais as coisas que sentia não eram imaginárias. Ela entendia o que as pessoas estavam pensando, seus sentimentos e intenções. Era algo meio assustador vasculhar os sentimentos alheios, mas era também incontrolável, ou melhor, não havia como evitar que se apresentassem, mas ela podia, se quisesse, desviá-los e reconectar -se a eles quando desejasse.
“Que dom estranho? Precisava saber mais sobre isso, mas com quem? Não tinha como voltar ao Xingu e mesmo assim não compreenderia o que falavam.”
Aldo ouviu tudo com muita paciência e curiosidade. Estava cético sobre a realidade deste fato e delicadamente fez ver a Apô este ponto de vista.
Apô, não duvido do que você viu e presenciou, mas, a bem da verdade não temos certeza do que é isso, desconsiderando a explicação metafísica. Afinal somos médicos, ou quase e temos de nos apoiar em evidência irrefutáveis … ou quase.
Eu concordo contigo, tudo parecia uma alucinação, mas não tenho como explicar a minha percepção. Pode ser que a Drª estivesse numa fase maníaca, pensei na hora, mas como explicar que antes dela falar eu já sabia o conteúdo. Talvez um truque da memória de inversão do tempo de percepção, mas tudo isso de uma vez, nela e em mim? Muito confuso.
Você tem razão, muito confuso. Vamos deixar o tempo passar e ver no que dá. Enquanto isso: Te amo muito.
“Nem precisa falar”, pensou Apô, “eu já sabia”, mas não se atreveu a dizer tal coisa.
Os dias que se seguiram não apresentaram muitas novidades. A Drª Nazaré pedira férias e licença e só voltaria daqui a seis meses.
Deixou um presente caro para Rúsevelte e uma carta de agradecimento. Apô sentiu pela carta que ela estava feliz e bem consigo mesma. Aliás isto era outra novidade que constatara quanto a sentir as coisas dos outros. Objetos que tivessem entrado em contato com eles podiam suscitar sensações em Apô. “Mais uma curiosidade a explorar” pensou. Começava a gostar desta situação.
Em casa, com Aldo repassaram os acontecimentos tentando entender e explica o peculiar dom de Rúsevelte Apô.
Temos de ir por eliminação. – disse Aldo- Primeiro não há nada na literatura médica formal que explique isso, exceto os estados mentais muito alterados, o que não é o caso Uso de drogas, também não. Tumores e distúrbios hormonais, muito menos
E fora da esfera da ciência? – Completou Apô
Bem, aí o campo é vastíssimo e não sei nem por onde começar.
Há mais uma coisa que ainda não lhe contei, porque só por estes dias é que notei.
Aldo parou o que fazia e postou-se a frente de Apô com toda a atenção.
Eu consigo saber o que os pacientes vão dizer. Não é nada a respeito da doença deles, mas como se sentem realmente diante da enfermidade. E te digo, são coisas inusitadas.
De que tipo?
A maioria sente uma contrariedade profunda e com frequência voltada para a família e de forma agressiva. Às vezes, sentem-se punidos por suas falhas e desentendimentos do passado. Chegam mesmo a verbalizar tais coisas. É muito triste.
E você, como fica nisso já que tem o amuleto.
Ah! O talismã do Pajé.! Acho que funciona como uma antena, eu diria um para-raios que consome todos os pecadas revelados. O certo é que as pessoas ficam muito aliviadas, Eu sinto isso. O Talismã é uma espécie de sugador de pecados, retirando-os da alma das pessoas.
O que você me diz é que há uma força misteriosa ao redor de você que através de um talismã é capaz de ouvir e eliminar os pecados das pessoas. Isto seria uma espécie de mecanismo automático de confissão e penitencia, ou seja, semelhante ao sacramento da confissão católica só que dispensa o padre, o ritual e até mesmo o Deus por trás de tido isso. E ainda revelado por um pajé do Xingu e que é seu primo. Meu amor – disse-o de forma lânguida – me promete que não vai revelar isso pra mais ninguém? Nem que seja torturada. Por muito menos mandaram o Giordano Bruno para a fogueira e acredite-me a humanidade não mudou nada desde então.
Não! Não se preocupe! Eu só falo isso com você porque sinto poder confiar em você plenamente.
Sente como? Como Rúsevelte ou Apô?
Amor – enquanto o abraçava ternamente – Você é o meu talismã. Com ou sem pajelança eu te amo e confio cegamente no nosso amor.
Rúsevelte ou Apô, você é minha querida.
E terminaram o dia entre carinhos e juras de amor.
À medida que o tempo corria, Apô aprendia mais e mais sobre esse seu dom e entendia melhor o que era o talismã. Muita coisa revelada nos sonhos onde, na maior parte das vezes, aparecia a . sua ancestral xavante falando a frase profética.
Ela se tornava verdadeiramente um pajé. Que outras surpresas adviriam?
Apô seguia atendendo na rotina do internato, Enfermaria, ambulatório, mesas redondas, seminários. Estudava muito e tinha a companhia de Aldo que fora a melhor coisa que lhe acontecera na vida, ousava dizer.
“Tem o talismã., mas não posso dizer que foi tão bom assim. Que surpresas me aguardam?” Pensava.
Apesar de manter-se muito discreta no uso de seu dom, o sucesso de Apô como médica, ou quase, ficou evidente. Os pacientes não poupavam elogios a ela e os resultados falavam por si. Isso chamou a atenção do preceptor que lhe propôs uma rotina de trabalho mais branda e mais concentrada em pacientes mais graves ou difíceis de tratar:
Você, Rúsevelte, tem um talento natural para lidar com as pessoas, como se você as lesse, além de ter um excelente diagnóstico.
Rúsevelte passou a atender os pacientes especiais. Eram aqueles em convalescência, fora de perigo, que precisavam de um atendimento mais específico. Havia os politraumatizados, os queimados, os transplantados enfim muita gente. Era mais tranquilo do que o pronto socorro, mas exigia muita atenção pela vulnerabilidade dos pacientes. Apô em pouco tempo construiu uma atmosfera de solidariedade na enfermaria e no ambulatório. Estava gostando e podia usar o seu dom sem preocupação e longe dos olhos do resto do “staff”.
Foi quando Angelita veio da pediatria. Ela tinha 10 anos, e fora atendida no pronto socorro e logo internada. Constataram lesões corporais e genitais.
Angelita se recusava a falar e sofria de terror noturno.
A mãe de Angelita não esclareceu nada e se mostrava reticente em falar com os médicos, logo reivindicou que dessem alta a Angelita. O Juiz responsável pela aplicação da lei de proteção aos menores, recusou o pedido da mãe e recomendou que se acelerasse a investigação.
Apô tomou conta do caso e procurou falar com Angelita. Sentadas uma frente a outra Apô liberou-se para sentir Angelita e, foi uma emoção tão violenta que Ap^^o recuou assustada. Aos poucos foi mitigando as sensações. Angelita estava profundamente abalada, aterrorizada e estava muito difícil que se abrisse com alguém. Foi quando Apô descobriu mais um aspecto do dom. Ela sem se dar conta passou a “falar” com Angelita.Era uma conexão mental direta entre as duas e assim Apô conseguiu a confiança da menina. Não houve muito mais do que isso Apô não obteve nenhuma informação sobre como ocorreram as violências contra Angelita .
No dia seguinte recebeu a mãe da paciente. Ao se encontrarem Apô sentiu um fortíssimo sentimento de raiva e culpa vindo dela. Deixou-se levar pela sensação que foi modificando para uma mágoa desesperada associada a um remorso imenso. Apô mentalizou o máximo que pode uma empatia de compreensão e perdão, quando a mãe começou a chorar baixinho murmurando alguma coisa. Apô sentiu o talismã pulsando e atraindo toda aquela contrariedade da mãe. Tudo durou alguns minutos até que ela começou a falar revelando todo inferno que vinha sendo a vida da Angelita.
Apô gravou tudo e deixou que a mãe encontrasse a filha sob escolta. Mais tarde encontrou-se com o Juiz da Vara de Família. O juiz ao ouvir a gravação e diante do relato de Apô, expediu ordens de prisão para a mãe e o seu companheiro.
Rúsevelte estava exausta. Em casa encontrou apoio de Aldo.
Trágico o caso dessa menina – disse Aldo impressionado pelo relato de Apô.
O relato de Apô era mais detalhista do que o depoimento da mãe na polícia devido, claro, ao dom perscrutador de Rúsevelte. Ela descreveu a perversidade do companheiro da mãe, responsável pelas agressões a Angelita.
Têm de prender este cara. Ele logo, logo vai cometer um crime ainda mais grave. – Afirmou Apô. “Eu sei”, pensou, “Aonde vai ser e contra quem. Como impedi-lo?
Você não consegue ver como será? Perguntou Aldo.
É por isso que eu amo você! – Falou Apô, quase gritando – Claro que sei, mas não tenho coragem de revelar senão pra você.
Mas não podemos deixar um crime acontecer.
-Vou alertar o delegado dizendo que … sei lá, qualquer coisa só não posso dizer que foi uma premonição.
Diz que um telefonema anônimo alertou.
Como um anônimo saberia meu telefone e porque?
Sei lá, diz que foi algum aluno da faculdade.
Certo. Isto é plausível.
Pelo amor de Deus, esta é a menor preocupação agora. Avise ao delegado e vamos para lá.
Vamos para lá?
Claro, podemos evitar um crime.
Certo, mas é perigoso.
Tomamos cuidado. Vamos, avise ao delegado.
A casa da mãe e do padrasto de Angelita era no pé de uma favela, um lugar considerado perigoso. Foram até um botequim e perguntaram pela casa. Havia quem os conhecia:
São os pais da Angelita, coitadinha.
Ela está bem lá no Hospital, mas preciso encontrar com os pais.
Ah! Você é a médica que ela falou que é bruxa. – a vizinha disse num tom de deboche.
Apô sentiu as vibrações que vinham da invejosa e fofoqueira e imediatamente a blindou mentalmente.
Não sou bruxa. Sou médica e me preocupo com Angelita. Mas, agora preciso achar a mãe e o padrasto imediatamente.
A intervenção mental de Apô fez efeito imediato.
Desculpe-me Doutora – disse a fofoqueira com um semblante choroso – Eles moram lá na subida. Ele é um homem bem perigoso e violento. Maltrata as duas. Não sei como elas aguentam.
O botequim rapidamente se encheu de gente que comentava tanto a vida dos pais da Angelita quanto a presença da Drª feiticeira:
Não é bruxa não, é médica. – Alguém falou.
Você não vão de jeito nenhum sozinhas até lá. O cara é maluco já teve várias vezes em cana.
Mas a mãe da Angelita corre perigo.- Disse Apô.
Mesmo assim, vamos esperar a polícia. Até já chamaram.
Rúsevelte, Aldo e mais dois moradores destemidos acompanharam Apô a subir a ladeira até ao barraco, pois chamar de casa era realmente um exagero.
Rúsevelte gritou pela mãe., uma duas vezes, sem resposta.
Estou sentindo alguma coisa muito maléfica. – murmurou Apô para Aldo
Eu não tenho nenhum dom mas estou sentindo a mesma coisa e morrendo de medo.
Então surgiu no alto da escada que ia da rua á entrada da casa, um sujeito encorpado, armado e furioso. Que fez o coração de Apô disparar, não menos do de Aldo que estava à beira do pânico.
Calma, meu amor – pressentia Apô – você é mais forte do que ele.
Mas ele tem uma arma muito mais forte do que eu.
O sujeito gritou:
Ninguém chega perto. A traidora teve o que mereceu. Roubou minha menina e me dedou pros hômi.
Ele matou a mãe de Angelita. Percebo claramente. Está cheio de ódio, rancor, culpa, remorso. Imprevisível. É melhor todos se afastarem. Eu vou tentar falar com ele.
‘Cê ‘tá maluca? Nem por cima do meu cadáver. Este cara é um celerado doente mental. Vamos aguardar a polícia. – Afirmou Aldo
Mas eu sinto que há uma possibilidade de acalmá-lo. Ele está muito assustado, talvez uma palavra amiga.
Que palavra amiga, Rúsevelte? Não confie tanto no seu dom, este tipo está desesperado e é um homicida.
Justamente, é o desespero que o domina, se ele deixar este sentimento pecaminoso sair da mente dele, ele se acalma. Acho que posso fazer isso.
Rúsevelte se levantou e se expôs, para a aflição de todos, principalmente Aldo que começou a odiar os indígenas e suas tradições. Falou em direção ao padrasto
Eu sou a médica de sua filha a Angelita. Trato dela. Ela está bem. Você vai querer vê-la, não?
Rúsevelte apurou todos seus sentidos para perceber o espirito do padrasto, e mentalizou ao máximo um sentimento de empatia. Funcionou por uns instantes. Ele pareceu se acalmar e perguntou pela menina. Parecia que se seguiria um período de calmaria mas, subitamente ele ergueu-se, apontou a arma para Rúsevelte e transido de raiva disse:
Foi você sua bruxa que convenceu minha mulher a me denunciar. Vai morrer por isso.
Ouviram-se vários tiros. Apô, de pé, tremia-se toda.
Aldo logo a envolveu num abraço enquanto a polícia dava cabo do padrasto.
Eu quase consegui – balbuciou Apô para Aldo.
Nunca, mas nunca mais mesmo, você repita isso.
A história virou reportagem nos jornais por toda semana e Rúsevelte foi entrevistada por todo mês. Na faculdade virara heroína e exemplo de dedicação aos pacientes.
Aldo esperava uma decisão de Apõ. Ela finalmente lhe disse:
Eu sei que você espera que eu abandone, sei lá como, este dom pois isto lhe deixa nervoso. Não tenho como atende-lo, embora até concorde com isso. Assim como não sei como adquiri este dom também não sei como deixá-lo. Mas tenho certeza que apesar de tudo você sempre me amará. E isso é o que conta.
Aldo não tinha outra coisa a fazer senão concordar e pensou: “Maldito dom, não erra nunca”!
E se deixou envolver pelos carinhos de Rúsevelte Apô.