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O SUGADOR DE PECADOS

terça-feira, fevereiro 3rd, 2026

O SUGADOR DE PECADOS

Rúsevelte fazia parte de um grupo de estudantes de medicina que visitou o parque do Xingu num programa da universidade voltado para as comunidades indígenas. Não havia um roteiro específico, mas eles tinham de acompanhar as equipes de saúde da FUNAI nos atendimentos nas aldeias.
Talvez porque Rúsevelte tivesse uma ascendência indígena pelo lado materno e fisicamente era indistinguível de uma indígena do Xingu, ela sempre despertava simpatia nas aldeias que visitava. Era frequentemente convidada a participar de atividades típicas das aldeias, banhos de rio, danças, cantorias e visitas às ocas. Rúsevelte não recusava nenhum convite e inclusive participara de uma cerimônia comandada pelo pajé da tribo, na qual fora pintada e ornamentada de acordo com algum ritual e este mesmo pajé a fizera comer uma espécie de paçoca, aliás intragável, e a obrigara a fumar um cachimbo que já ‘percorrera muitas bocas dos presentes. Rúsevelte, no entanto, fez tudo que mandaram com alegria pois sentia que afinal aquele era o seu povo originário.
Seus colegas de faculdade se divertiam com a situação e troçavam de sua recém condição:

Te deram um nome?

Deram sim. É Apô. Para eles eu sou Apô. Se eu entendi quer dizer tamanduá e me disseram muitas coisas, mas meu tradutor não conseguiu me informar quase nada.

E o que é isso que te deram e você carrega no pescoço? Algum amuleto sagrado?

Pois é, acho que é a algo assim, uma espécie de protetor espiritual, mas eu não entendi nada quando tentaram traduzir. Rúsevelte “Apô” recebera do pajé um cordão feito de couro com um saquinho trançado na ponta e dentro dele uma pedra branca, redonda, bem bonita.
Lhe deram muitas recomendações que Apô não compreendeu exceto que deveria usá-la permanentemente e que não deveria entregá-la a ninguém. De resto, não percebeu qualquer propriedade do amuleto, mas via que os índios passaram a respeitá-la mais formalmente
“Bem” conjecturou, “deve ser o efeito de que recebera aquilo diretamente do Pajé. Precisava descobrir que significava aquilo tudo”.
Tais pensamentos e ações ficaram postergadas pois o grupo preparava-se para retornar. Na véspera foram festejados na aldeia e Apô teve um tratamento todo especial. Os colegas afirmavam que ela era a “queridinha” do Pajé. Considerou-se que a aparência de Rúsevelte certamente contribuíra para tanto, ademais do caráter amistoso dela.
Enfim retornaram à cidade e à rotina da faculdade.
Rúsevelte Apô tornara-se uma celebridade na escola. Os vídeos dela nas festas da aldeia, pintada e ornamentada como uma xavante e celebrada pelas vovós “aryia”, guerreiros e pajés circulavam nos celulares. Também pululavam as versões sobre o fato. “Ela foi consagrada a Tupã”, “virou a aprendiz de pajé”,
Muitos colegas lhe pediam dicas na loteria ou que lhes vislumbrasse o futuro.
Rúsevelte “Apô” levava tudo na brincadeira e ria-se dos colegas, mas algo a preocupava.
Passou a usar o amuleto com mais frequência e por fim não se separava dele. Era uma peça de artesanato única e bonita e lhe caía bem. Muitas pessoas elogiavam a peça que era realmente bonita. Desde então, ao se aproximar de certas pessoas, Apô inesperadamente agitava-se. Ficava absorta em pensamentos que lhe acometiam como se tivessem vindo daquela pessoa. Eram sensações por vezes desagradáveis como coisas más que buscassem se revelar. Sentia também uma forte ligação mental com aquela pessoa a ponto de perceber o que ela estava pensando. Tudo muito estranho para Rúsevelte “Apô”. Tais episódios estavam cada vez mais frequentes, no entanto duravam pouquíssimo tempo e desapareciam. Rúsevelte pensara que era alguma idiossincrasia sua e que passaria com o tempo. Mas isto não aconteceu.
E tinha os sonhos, cada vez mais frequentes, com a avó ou mesmo pessoas desconhecidas, todas de características indígenas. Um sonho em particular a impressionou muito; era uma mulher xavante com as pinturas e adornos iguais ao que ela usou na cerimônia na aldeia onde o pajé lhe deu o amuleto. A índia fala algumas palavras em tupi e entrega à Apô o amuleto. Este sonho repetiu-se várias vezes. Ela anotou as palavras em tupi para não as esquecer e procuraria a tradução.
Os episódios de “empatia ou antipatia imediata” como passou a chamar o que sentia ao se aproximar de algumas pessoas não só aumentaram de frequência bem como começavam a adquirir conteúdo. Apô podia, de um certo modo, adivinhar o que as pessoas estavam sentindo e pensando. Achou que era uma impressão ilusória. Mas não. Várias vezes as pessoas falavam e se comportavam como Apô pressentira. Aos poucos aprendeu que podia bloquear tais premonições quando queria.
Mas os efeitos deste tipo de psiquismo peculiar como descrevia para si mesma estenderam-se para o meio profissional.
Apô estava nos últimos anos de aprendizado e já atendia os pacientes sob supervisão da Drª Nazaré, excelente preceptora e titular da enfermaria. Além de excelente médica era uma mulher de meia idade muito bonita e que se tratava adequadamente. Apô a admirava e em especial pelo “charme” que demostrava tanto profissional com pessoalmente. Estava sempre bem vestida e bem humorada e tratava os internos de forma atenciosa.
Mas, quando ela se aproximava, Apô sentia um mal-estar de profunda tristeza e raiva que Drª Nazaré transmitia.
Comentou com Aldo, seu colega de internato:

A Drª Nazaré está sofrendo, eu sinto isso.

Não parece. Ela tem uma vida agitada. Era conhecida como namoradeira.

Como você sabe disso?

Meu tio, que é médico, a conhece desde a faculdade e me contou isso. Ela namorou professores e colegas, alguns deles foram apaixonados por ela, mas ela os destratou de forma cruel.

Isso não é mais uma fofoca?

Talvez, em parte .,, mas o fato é que, dizem, ela destruiu dois casamentos e isto é bem conhecido.

Mesmo assim eu pressinto que ela está à beira de uma crise nervosa.

Tais pressentimentos têm a ver com a Apô mais do que a Rúsevelte?

Olha, você é meu melhor amigo, portanto vou lhe contar.
Apô gostava de Aldo, gostava muito. Ele a mimava e evidentemente gostava dela. Os dois ainda não revelaram tais sentimentos por pura timidez e devido ao calendário exaustivo do internato. No entanto, estavam sempre combinando programas juntos. Os amigos em comum apostavam que cedo ou tarde seria mais um casal na turma.

O que de tão importante você tem para me contar que possa me impressionar, já que praticamente eu conheço tudo a seu respeito.

Quase tudo.

Pois conte-me o que não sei.

Realmente tem a ver com esse amuleto que ganhei no Xingu, mas há uma história passada, que pesquisei com meus tios e avós. Minha família descende de uma índia xavante que casou com um indigenista da FUNAI.

Isto eu já sei.

A novidade é que esta índia era filha de um pajé poderoso. Este Pajé é meu bisavô.

Esta informação é nova, mas não surpreendente.

Pois descobri que o Pajé que comandou a cerimônia onde me deram um nome xavante e o talismã, é sobrinho bisneto do meu bisavô, portanto tecnicamente sou prima dele. Não é surpreendente?

Como fato é revelador, mas não surpreendente visto que seus ancestrais são todos xavantes e da mesma tribo, exceto seu pai que só não era xavante porque nasceu de uma família de São Paulo, descendente de portugueses.

O que me intriga é que quando consegui a tradução da frase que minha ancestral repetia nos sonhos era: “Caminharás ao teu destino”
(Ende t’ere guata te cendara) ou algo semelhante, meu tradutor não foi muito seguro, mas sinto que o significado é este mesmo.

Você tem alguma sugestão do que significa esta frase profética vinda oniricamente direto dos seus ancestrais?

A princípio não me dizia nada, era apenas um sonho repetido e talvez eu tenha rememorado algo que ouvi no Xingu.

Mas…

Sim, mas tem acontecido algo comigo que ao mesmo tempo me amedronta e fascina. Por exemplo, toda vez que a Drª Nazaré se aproxima tenho a sensação de que ela sofre e quase ouço algo como uma súplica.

Isto, amiga, pode ser só uma projeção psicológica sua porque a Drª Nazaré não tem a menor pinta de que está sofrendo qualquer coisa. É uma mulher bonita, independente, rica, profissional brilhante e cheia de admiradores, com uma agenda social repleta.
O que a faria sofrer?

Não sei ainda mas está ficando cada vez mais forte essa impressão. E isso também acontece com outras pessoas, mas aprendi a controlar.

O que você está me dizendo é que desenvolveu alguma capacidade mediúnica., mas devo alertá-la que não há esta especialidade na medicina. Você terá de voltar para a aldeia do Xingu. Mas me diz só por curiosidade, o que você sente quando me aproximo? Ânsias, mal estar, dores?

Nada disso e tenho até um certo temor em revelar.

Ora, não se acanhe comigo.

Eu sinto uma onda de afeto.
Aldo não esperava esta resposta e se preparara para uma réplica atrevida, mas só respondeu.

Nós somos amigos, é natural…
Com esta frase ele de certo modo admitia que Apô estava certa. Ele realmente sentia um enorme afeto por ela.

Não é só afeto de amizade Aldo, é muito mais do que isso, eu diria que é amor.
Aldo ficou estático, ela parecia ter lido sua alma. Aldo estava já há muito tempo apaixonado por Rúsevelte Apô, e nem sabia como responder. Apô continuou:

Eu tenho de lhe dizer que estou profundamente enamorada de você, mas só digo isto agora porque pude sentir que você me retribuirá com o mesmo amor.
Os dois permaneceram em silêncio por um par de minutos antes de darem vazão à paixão e ao desejo que guardavam. Assim decorreu todo o dia.
Os jovens amantes quase esqueceram a hora de comparecer à enfermaria. Se separaram e combinaram se reencontrar à noite na casa dela. Ele tinha a chave.
A Drª Nazaré já estava fazendo a ronda na enfermaria quando, atrasada, Rúsevelte chegou e discretamente se juntou ao grupo, mas sentiu, agora bem forte, vindo da Nazaré, ondas de sensações bastante negativas dentre elas algo muito desesperançoso. Bloqueou o que pôde, mas a Drª buscava aproximar-se dela. Foi assim toda manhã e quando Rúsevelte Apô já se retirava ouviu a Drª Nazaré chamá-la. Soube imediatamente do que se tratava e apesar de um certo constrangimento, lhe veio à mente o que lhe foi dito em sonhos Caminharás ao teu destino” (Ende t’ere guata te cendara) ou algo semelhante. Respondeu ao chamado com um sorriso sincero, mas preocupado.

Sim Drª.

Preciso conversar com você, mas não aqui no Hospital. Te convido para almoçar em outro lugar onde podemos ficar à vontade.

Claro Drª. tenho tempo, só preciso de estar aqui mais tarde.

Ótimo, então vamos.
Rúsevelte pensou se deveria ou não avisar Aldo, por fim deixou-lhe um recado na caixa postal: “Estou almoçando com a Drª Nazaré. Não sei quanto tempo vai durar. Eu aviso quando estiver livre. Beijos, querido”
Chegaram ao restaurante. Luxuoso com um atendimento extraordinário e foram direto para uma mesa mais afastada das outras. Apô viu que a Drª era conhecida no pedaço e que os garçons se desdobravam para agradá-la. Pediram drinks e Apô só acompanhava os pedidos da Drª, enquanto avaliava o que estava captando. Agora a sensação era de tristeza e solidão com um pouco de ressentimento.
-Você deve estar se perguntando porque a convidei, pois não?
Apô não precisava saber, mas concordou.

Não sei como lhe explicar mas nestes dias a tua presença me traz uma certa inquietude, curiosidade e porque não dizer, esperança.
Apô, em silêncio ouviu a Drª Nazaré contar a sua vida com detalhes, inclusive e principalmente os sórdidos, e não eram poucos. Luxúria principalmente, inveja, ira, soberba e mentira. Um caudal extraordinário de pecados.
À medida que ela contava Apô sentia que eles quase se materializavam e eram consumidos de alguma forma que não sabia bem explicar.
A Drª Nazaré levou horas se confessando para uma Apô que tinha plena consciência do seu papel ali e lembrava das palavras proféticas dos sonhos. Era esse seu papel, ouvir os pecados dos outros e eliminá-los misteriosamente.
As ondas de sentimentos vindo da Drª mudaram totalmente, não continham mais tristeza, raiva ou angústia e o comportamento dela exibia isso. Mandou vir champanhe, sobremesas caras e saudou efusivamente Apô.

Menina, não sei o que me levou a convidá-la a vir até aqui e falar tudo que falei e que nuca revelara a ninguém. Lhe agradeço.
Enquanto voltava para casa para encontrar Aldo teve vários sentimentos íntimos sobre si mesma. Ela fora consagrada, não sei pra que ou pra quem, seu primo pajé talvez soubesse e, além do mais as coisas que sentia não eram imaginárias. Ela entendia o que as pessoas estavam pensando, seus sentimentos e intenções. Era algo meio assustador vasculhar os sentimentos alheios, mas era também incontrolável, ou melhor, não havia como evitar que se apresentassem, mas ela podia, se quisesse, desviá-los e reconectar -se a eles quando desejasse.
“Que dom estranho? Precisava saber mais sobre isso, mas com quem? Não tinha como voltar ao Xingu e mesmo assim não compreenderia o que falavam.”
Aldo ouviu tudo com muita paciência e curiosidade. Estava cético sobre a realidade deste fato e delicadamente fez ver a Apô este ponto de vista.

Apô, não duvido do que você viu e presenciou, mas, a bem da verdade não temos certeza do que é isso, desconsiderando a explicação metafísica. Afinal somos médicos, ou quase e temos de nos apoiar em evidência irrefutáveis … ou quase.

Eu concordo contigo, tudo parecia uma alucinação, mas não tenho como explicar a minha percepção. Pode ser que a Drª estivesse numa fase maníaca, pensei na hora, mas como explicar que antes dela falar eu já sabia o conteúdo. Talvez um truque da memória de inversão do tempo de percepção, mas tudo isso de uma vez, nela e em mim? Muito confuso.

Você tem razão, muito confuso. Vamos deixar o tempo passar e ver no que dá. Enquanto isso: Te amo muito.
“Nem precisa falar”, pensou Apô, “eu já sabia”, mas não se atreveu a dizer tal coisa.
Os dias que se seguiram não apresentaram muitas novidades. A Drª Nazaré pedira férias e licença e só voltaria daqui a seis meses.
Deixou um presente caro para Rúsevelte e uma carta de agradecimento. Apô sentiu pela carta que ela estava feliz e bem consigo mesma. Aliás isto era outra novidade que constatara quanto a sentir as coisas dos outros. Objetos que tivessem entrado em contato com eles podiam suscitar sensações em Apô. “Mais uma curiosidade a explorar” pensou. Começava a gostar desta situação.
Em casa, com Aldo repassaram os acontecimentos tentando entender e explica o peculiar dom de Rúsevelte Apô.

Temos de ir por eliminação. – disse Aldo- Primeiro não há nada na literatura médica formal que explique isso, exceto os estados mentais muito alterados, o que não é o caso Uso de drogas, também não. Tumores e distúrbios hormonais, muito menos

E fora da esfera da ciência? – Completou Apô

Bem, aí o campo é vastíssimo e não sei nem por onde começar.

Há mais uma coisa que ainda não lhe contei, porque só por estes dias é que notei.
Aldo parou o que fazia e postou-se a frente de Apô com toda a atenção.

Eu consigo saber o que os pacientes vão dizer. Não é nada a respeito da doença deles, mas como se sentem realmente diante da enfermidade. E te digo, são coisas inusitadas.

De que tipo?

A maioria sente uma contrariedade profunda e com frequência voltada para a família e de forma agressiva. Às vezes, sentem-se punidos por suas falhas e desentendimentos do passado. Chegam mesmo a verbalizar tais coisas. É muito triste.

E você, como fica nisso já que tem o amuleto.

Ah! O talismã do Pajé.! Acho que funciona como uma antena, eu diria um para-raios que consome todos os pecadas revelados. O certo é que as pessoas ficam muito aliviadas, Eu sinto isso. O Talismã é uma espécie de sugador de pecados, retirando-os da alma das pessoas.

O que você me diz é que há uma força misteriosa ao redor de você que através de um talismã é capaz de ouvir e eliminar os pecados das pessoas. Isto seria uma espécie de mecanismo automático de confissão e penitencia, ou seja, semelhante ao sacramento da confissão católica só que dispensa o padre, o ritual e até mesmo o Deus por trás de tido isso. E ainda revelado por um pajé do Xingu e que é seu primo. Meu amor – disse-o de forma lânguida – me promete que não vai revelar isso pra mais ninguém? Nem que seja torturada. Por muito menos mandaram o Giordano Bruno para a fogueira e acredite-me a humanidade não mudou nada desde então.

Não! Não se preocupe! Eu só falo isso com você porque sinto poder confiar em você plenamente.

Sente como? Como Rúsevelte ou Apô?

Amor – enquanto o abraçava ternamente – Você é o meu talismã. Com ou sem pajelança eu te amo e confio cegamente no nosso amor.

Rúsevelte ou Apô, você é minha querida.
E terminaram o dia entre carinhos e juras de amor.
À medida que o tempo corria, Apô aprendia mais e mais sobre esse seu dom e entendia melhor o que era o talismã. Muita coisa revelada nos sonhos onde, na maior parte das vezes, aparecia a . sua ancestral xavante falando a frase profética.
Ela se tornava verdadeiramente um pajé. Que outras surpresas adviriam?
Apô seguia atendendo na rotina do internato, Enfermaria, ambulatório, mesas redondas, seminários. Estudava muito e tinha a companhia de Aldo que fora a melhor coisa que lhe acontecera na vida, ousava dizer.
“Tem o talismã., mas não posso dizer que foi tão bom assim. Que surpresas me aguardam?” Pensava.
Apesar de manter-se muito discreta no uso de seu dom, o sucesso de Apô como médica, ou quase, ficou evidente. Os pacientes não poupavam elogios a ela e os resultados falavam por si. Isso chamou a atenção do preceptor que lhe propôs uma rotina de trabalho mais branda e mais concentrada em pacientes mais graves ou difíceis de tratar:

Você, Rúsevelte, tem um talento natural para lidar com as pessoas, como se você as lesse, além de ter um excelente diagnóstico.
Rúsevelte passou a atender os pacientes especiais. Eram aqueles em convalescência, fora de perigo, que precisavam de um atendimento mais específico. Havia os politraumatizados, os queimados, os transplantados enfim muita gente. Era mais tranquilo do que o pronto socorro, mas exigia muita atenção pela vulnerabilidade dos pacientes. Apô em pouco tempo construiu uma atmosfera de solidariedade na enfermaria e no ambulatório. Estava gostando e podia usar o seu dom sem preocupação e longe dos olhos do resto do “staff”.
Foi quando Angelita veio da pediatria. Ela tinha 10 anos, e fora atendida no pronto socorro e logo internada. Constataram lesões corporais e genitais.
Angelita se recusava a falar e sofria de terror noturno.
A mãe de Angelita não esclareceu nada e se mostrava reticente em falar com os médicos, logo reivindicou que dessem alta a Angelita. O Juiz responsável pela aplicação da lei de proteção aos menores, recusou o pedido da mãe e recomendou que se acelerasse a investigação.
Apô tomou conta do caso e procurou falar com Angelita. Sentadas uma frente a outra Apô liberou-se para sentir Angelita e, foi uma emoção tão violenta que Ap^^o recuou assustada. Aos poucos foi mitigando as sensações. Angelita estava profundamente abalada, aterrorizada e estava muito difícil que se abrisse com alguém. Foi quando Apô descobriu mais um aspecto do dom. Ela sem se dar conta passou a “falar” com Angelita.Era uma conexão mental direta entre as duas e assim Apô conseguiu a confiança da menina. Não houve muito mais do que isso Apô não obteve nenhuma informação sobre como ocorreram as violências contra Angelita .
No dia seguinte recebeu a mãe da paciente. Ao se encontrarem Apô sentiu um fortíssimo sentimento de raiva e culpa vindo dela. Deixou-se levar pela sensação que foi modificando para uma mágoa desesperada associada a um remorso imenso. Apô mentalizou o máximo que pode uma empatia de compreensão e perdão, quando a mãe começou a chorar baixinho murmurando alguma coisa. Apô sentiu o talismã pulsando e atraindo toda aquela contrariedade da mãe. Tudo durou alguns minutos até que ela começou a falar revelando todo inferno que vinha sendo a vida da Angelita.
Apô gravou tudo e deixou que a mãe encontrasse a filha sob escolta. Mais tarde encontrou-se com o Juiz da Vara de Família. O juiz ao ouvir a gravação e diante do relato de Apô, expediu ordens de prisão para a mãe e o seu companheiro.
Rúsevelte estava exausta. Em casa encontrou apoio de Aldo.

Trágico o caso dessa menina – disse Aldo impressionado pelo relato de Apô.
O relato de Apô era mais detalhista do que o depoimento da mãe na polícia devido, claro, ao dom perscrutador de Rúsevelte. Ela descreveu a perversidade do companheiro da mãe, responsável pelas agressões a Angelita.

Têm de prender este cara. Ele logo, logo vai cometer um crime ainda mais grave. – Afirmou Apô. “Eu sei”, pensou, “Aonde vai ser e contra quem. Como impedi-lo?

Você não consegue ver como será? Perguntou Aldo.

É por isso que eu amo você! – Falou Apô, quase gritando – Claro que sei, mas não tenho coragem de revelar senão pra você.

Mas não podemos deixar um crime acontecer.
-Vou alertar o delegado dizendo que … sei lá, qualquer coisa só não posso dizer que foi uma premonição.

Diz que um telefonema anônimo alertou.

Como um anônimo saberia meu telefone e porque?

Sei lá, diz que foi algum aluno da faculdade.

Certo. Isto é plausível.

Pelo amor de Deus, esta é a menor preocupação agora. Avise ao delegado e vamos para lá.

Vamos para lá?

Claro, podemos evitar um crime.

Certo, mas é perigoso.

Tomamos cuidado. Vamos, avise ao delegado.
A casa da mãe e do padrasto de Angelita era no pé de uma favela, um lugar considerado perigoso. Foram até um botequim e perguntaram pela casa. Havia quem os conhecia:

São os pais da Angelita, coitadinha.

Ela está bem lá no Hospital, mas preciso encontrar com os pais.

Ah! Você é a médica que ela falou que é bruxa. – a vizinha disse num tom de deboche.
Apô sentiu as vibrações que vinham da invejosa e fofoqueira e imediatamente a blindou mentalmente.

Não sou bruxa. Sou médica e me preocupo com Angelita. Mas, agora preciso achar a mãe e o padrasto imediatamente.
A intervenção mental de Apô fez efeito imediato.

Desculpe-me Doutora – disse a fofoqueira com um semblante choroso – Eles moram lá na subida. Ele é um homem bem perigoso e violento. Maltrata as duas. Não sei como elas aguentam.
O botequim rapidamente se encheu de gente que comentava tanto a vida dos pais da Angelita quanto a presença da Drª feiticeira:

Não é bruxa não, é médica. – Alguém falou.

Você não vão de jeito nenhum sozinhas até lá. O cara é maluco já teve várias vezes em cana.

Mas a mãe da Angelita corre perigo.- Disse Apô.

Mesmo assim, vamos esperar a polícia. Até já chamaram.
Rúsevelte, Aldo e mais dois moradores destemidos acompanharam Apô a subir a ladeira até ao barraco, pois chamar de casa era realmente um exagero.
Rúsevelte gritou pela mãe., uma duas vezes, sem resposta.

Estou sentindo alguma coisa muito maléfica. – murmurou Apô para Aldo

Eu não tenho nenhum dom mas estou sentindo a mesma coisa e morrendo de medo.
Então surgiu no alto da escada que ia da rua á entrada da casa, um sujeito encorpado, armado e furioso. Que fez o coração de Apô disparar, não menos do de Aldo que estava à beira do pânico.

Calma, meu amor – pressentia Apô – você é mais forte do que ele.

Mas ele tem uma arma muito mais forte do que eu.
O sujeito gritou:

Ninguém chega perto. A traidora teve o que mereceu. Roubou minha menina e me dedou pros hômi.

Ele matou a mãe de Angelita. Percebo claramente. Está cheio de ódio, rancor, culpa, remorso. Imprevisível. É melhor todos se afastarem. Eu vou tentar falar com ele.

‘Cê ‘tá maluca? Nem por cima do meu cadáver. Este cara é um celerado doente mental. Vamos aguardar a polícia. – Afirmou Aldo

Mas eu sinto que há uma possibilidade de acalmá-lo. Ele está muito assustado, talvez uma palavra amiga.

Que palavra amiga, Rúsevelte? Não confie tanto no seu dom, este tipo está desesperado e é um homicida.

Justamente, é o desespero que o domina, se ele deixar este sentimento pecaminoso sair da mente dele, ele se acalma. Acho que posso fazer isso.
Rúsevelte se levantou e se expôs, para a aflição de todos, principalmente Aldo que começou a odiar os indígenas e suas tradições. Falou em direção ao padrasto

Eu sou a médica de sua filha a Angelita. Trato dela. Ela está bem. Você vai querer vê-la, não?
Rúsevelte apurou todos seus sentidos para perceber o espirito do padrasto, e mentalizou ao máximo um sentimento de empatia. Funcionou por uns instantes. Ele pareceu se acalmar e perguntou pela menina. Parecia que se seguiria um período de calmaria mas, subitamente ele ergueu-se, apontou a arma para Rúsevelte e transido de raiva disse:

Foi você sua bruxa que convenceu minha mulher a me denunciar. Vai morrer por isso.
Ouviram-se vários tiros. Apô, de pé, tremia-se toda.
Aldo logo a envolveu num abraço enquanto a polícia dava cabo do padrasto.

Eu quase consegui – balbuciou Apô para Aldo.

Nunca, mas nunca mais mesmo, você repita isso.
A história virou reportagem nos jornais por toda semana e Rúsevelte foi entrevistada por todo mês. Na faculdade virara heroína e exemplo de dedicação aos pacientes.
Aldo esperava uma decisão de Apõ. Ela finalmente lhe disse:

Eu sei que você espera que eu abandone, sei lá como, este dom pois isto lhe deixa nervoso. Não tenho como atende-lo, embora até concorde com isso. Assim como não sei como adquiri este dom também não sei como deixá-lo. Mas tenho certeza que apesar de tudo você sempre me amará. E isso é o que conta.
Aldo não tinha outra coisa a fazer senão concordar e pensou: “Maldito dom, não erra nunca”!
E se deixou envolver pelos carinhos de Rúsevelte Apô.

IBRAHIM E TIÃO EM OPARA

terça-feira, agosto 1st, 2023

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IBRAHIM E TIÃO EM OPARA

( Uma projeção numa tela no fundo da cena vai mostrando imagens à medida da fala do NARRADOR)
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NARRADOR
A guerra da Holanda com a Espanha iniciou-se em 1621 e, neste mesmo ano, a Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie – WIC) foi fundada.
A WIC tinha como objetivo tomar dos espanhóis e portugueses o controle dos locais produtores de açúcar, e os postos de comércios de escravos na África.
Os holandeses em 1630, atacaram e conquistaram Olinda.
Em 1648 e 1649 os holandeses foram derrotados nas duas batalhas de Guararapes, A guerra estendeu-se até 1654, quando os portugueses retomaram a região

A foz do Rio São Francisco era fronteira dominada pelos holandeses. Tal domínio, no entanto era precário, sobreviviam por seus próprios meios e organização.
Os caminhos e trilhas que cruzavam este sertão eram frequentados por aventureiros, caçadores, caixeiros viajantes, traficantes de escravos, salteadores e bandoleiros em geral, o que as tornavam muito perigosas. Por conta disso só as caravanas bem armadas as usavam.

A vila de Opara na foz do rio São Francisco prosperara comerciando com portugueses, holandeses e quilombolas havia décadas.
Era dominada por um tal de Antônio Piñales, vulgo JAPIIM, que vivia numa mansão no alto de uma pequena colina à beira da margem direita… do rio São Francisco. A vivenda era cercada por uma paliçada dupla com mais de três metros de altura com várias torres de vigia ao redor. JAPIIM tinha a seu serviço uma tropa de jagunços que defendia a cidadela. JAPIIM extorquia os habitantes, comerciantes e viajantes que chegavam à região.

Era o ano de 1654 a guerra contra os holandeses atingira o seu ápice. A vila de Opara, na foz do Rio São Francisco pouco sofrera nem durante a ocupação holandesa nem nesta transição pós-guerra.
O judeu Ibrahim, vulgo “BRAIM”, e seu escravo ‘TIÃO, sozinhos na maior parte das vezes, percorriam o sertão com mulas carregadas de mercadorias para serem vendidas nos diferentes vilarejos e fazendas desde o Recife até no Recôncavo baiano. Era um comércio lucrativo pois poucos atendiam os inúmeros povoamentos da região. Numa dessas viagens à Vila de OPARA.

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PRIMEIRA CENA
A imagem de fundo é uma região com mata atlântica. Abrigados sob uma árvore na trilha para Opara, ao cair da tarde quente, BRAIM e TIÃO desencilharam as mulas, deram-lhes água e deixaram-nas a pastar a rala vegetação do entorno. Aprumavam-se para pernoitar:

BRAIM:   Amanhã chegaremos a Opara. É uma Vila com muitos abastados principalmente o condestável António Piñales, o JAPIIM, suas detestáveis esposa D. MATILDE e filha D. JOANA. São meus fregueses. Bons pagadores. (Ri-se debochadamente)

TIÃO:  O JAPIIM e sua família são pessoas perigosas, violentas e más. Mandam em Opara graças aos bandidos a soldo que lhes servem. Acho que não deveríamos frequentar esta praça. Ademais comenta-se que os bandidos são capangas do JAPIIM.
BRAIM:  E perder estas vendas certas? Os ricos de Opara não discutem preço. São vaidosos e gostam de ostentar, principalmente os JAPIINs. E enquanto os abastecermos com estas especiarias e ornamentos estamos seguros.
TIÃO: As vendas podem ser boas, mas o perigo é grande. Que Deus nos proteja!

BRAIM (rindo-se com desdém) Vamos descansar TIÃO. Amanhã teremos um longa jornada. Deixe de ser medroso!

(TIÃO resmunga e recosta-se na esteira para dormir. Cai a noite, BRAIM abaixa a chama do candeeiro e se deita.

braim-e-tiafoChega a aurora e no lusco-fusco um BANDIDO se aproxima e os acorda aos gritos):

BANDIDO: Levantem cabras da peste se não quiserem morrer! (Braim e Tião acordam sobressaltados e se levantam) Fiquem de joelhos junto a árvore de costas para mim.

( O bandido revira os baús. Braim num rasgo de coragem transido de medo se dirige ao salteador)

BRAIM: -Senhor, se me permite a ousadia. Leve as mercadorias e as mulas, mas por misericórdia poupe nossas vidas.

( O bandido continuou revirando os baús.  TIÃO choramingava junto com BRAIM, rezando e imprecando contra a má sorte, O BANDIDO estava rindo e debochando das vítimas quando se escutou um tiro e o corpo do BANDIDO tombou exatamente aos pés dos dois, Atônitos olharam em volta tentando entender o que ocorrera. E viram um homem segurando uma pistola dirigindo-se para eles)

BRAIM: (se ajoelhando defronte ao pistoleiro, junto com um boquiaberto Tião):
Ah! Senhor, por misericórdia tenha piedade de nós.
TEGRIMO, O ATIRADOR:  Ponham-se de pé homens. Não lhes farei mal.

( Abaixou-se junto ao corpo do BANDIDO para certifica-se que estava realmente morto)

Vocês o enterrem longe da estrada, mas antes tirem tudo dele, queimem as roupas dele e soltem o cavalo no mato. Andem.

                      (Terminaram o serviço já anoitecendo e cansados sentaram-se debaixo da árvore. TEGRIMO, o pistoleiro, lhes deu água de um cantil e nacos de carne seca. Sentou-se junto aos caixeiros e lhes falou )

TEGRIMO:
Eu conheço vocês. São caixeiros que frequentam estas áreas. Não lhes vou fazer mal. Sou TEGRIMO e acho que já devem ter ouvido falar de mim. Provavelmente que sou um bandoleiro de estrada.

                                (Pausa enquanto andava para lá e para cá a frente dos dois andarilhos)

É verdade, mas a maior parte das histórias são falsas. Esqueçam estes boatos. Temos outros assuntos importantes a falar. Eu estava mesmo no encalço de vocês e, por sorte, os encontrei junto com o BANDIDO, Agora me contém o que farão em Opara?
BRAIM (mais calmo)   Esperamos chegar à Vila e nos abrigaremos no albergue Opara-Oca. Nosso cliente principal é a família de JAPIIM. Eles são excelentes compradores e estou levando muitas novidades que tenho certeza irão adquirir. São tecidos, calçados, joias, perfumes, adereços e outras alfaias como lençóis, mantas artigos para a costura e para cozinha como louças, panelas, talheres.
TIÃO: Bebidas e remédios também
BRAIM: Tenho certeza de que venderemos tudo, lá mesmo na paliçada de JAPIIM.
TEGRIMO: Isto quer dizer que conhecem a paliçada? Têm livre acesso?
BRAIM: Sim, já estivemos lá vendendo nossas mercadorias, Aliás sempre vendemos tudo.
TIÃO: Eu também atendo como barbeiro, dos bons e muito solicitado.
BRAIM: Sapateiro e costureiro
TIÃO: Também lanceto tumores, bicho do pé, costuro ferimentos, extraio dentes e outras coisas.
BRAIM: É verdade. O Tião inclusive tem várias garrafadas para muitos males.
TEGRIMO: Você conhecem como funciona a guarda da paliçada? Tudo lá dentro?
BRAIM (depois de um lapso pensativo): Já estive lá inúmeras vezes. Acho que conheço bem o local.
TIÃO: Eu conheço toda criadagem e os locais que vivem, onde guardam os animais e os víveres. Sei onde fica a sala de armas deles.
TEGRIMO: ( mostrando satisfação): Vocês serão muito úteis. Preciso dessas informações com detalhes e ao chegarmos lá quero mais detalhes ainda. Mas, isto será um segredo entre nós. Se vazar que estamos bisbilhotando será o fim de todos nós. E nem pensem em me trair.
BRAIM E TIÃO (em uníssono) Nem pensar, nunca.
BRAIM: Lhe devemos nossa vida. Seremos eternamente gratos
TIÃO: E fiéis
BRAIM: Isso mesmo. Fiéis até à morte.

TIÃO ( com uma cara de espanto) Até a morte? Mesmo?
BRAIM ( puxando TIÃO para se ajoelhar diante de TEGRIMO) Sim, até a morte!
TEGRIMO (rindo) Então partimos amanhã bem cedo.

(Recolhidos às suas esteiras BRAIM E TIÃO lado a lado)

TIÃO (sussurrando)  No que estamos nos metendo BRAIM?

BRAIM (também sussurrando) Numa baita confusão, mas não temos alternativa. Só espero vender tudo e dar o fora..

taberna

2ª CENA

No albergue “Opara-oca” . O local estava cheio e os fregueses contavam suas façanhas com detalhes. TEGRIMO encontrou alguns de seus comparsas, BRAIM e TIÃO alguns de seus fregueses.

TREGRIMO (aproximou-se de BRAIM e discretamente falou) Não vamos nos mostrar muIto próximos. A tasca está cheia de gente de JAPIIM. Nos encontraremos em outro lugar. Eu aviso.
BRAIM (falando na surdina): Boa ideia. Eu já reconheci vários jagunços da paliçada inclusive o chefe da guarda. Ele quer ver as mercadorias. Posso marcar logo uma visita à paliçada.
TEGRIMO: Muito bom. Temos ainda de juntar e preparar meu pessoal e isto pode levar algum tempo.

Afastou-se e TIÂO que tudo ouvira indagou a BRAIM;

TIÂO: Que pessoal é esse que ele está falando? ‘Tá reagrupando a quadrilha para que?
BRAIM: Não sei, mas desconfio que ele quer assaltar a paliçada.
TIÃO: Então vamos dar o fora. Podemos vender em outro lugar.

BRAIM: Se arredarmos o pé daqui nunca mais teremos paz. Vamos ficar e fazer o que ele quer. Vender tudo e esperar que possamos sair de fininho.

TIÃO: ‘Tamo ferrados. Não tem jeito de sair sem sermos percebidos depois que ele tentar roubar JAPIIM.
BRAIM: Tenha fé Tião. Acharemos um jeito de escapar.
TIÃO: Fé eu tenho e muito medo.

(TEGRIMO se aproxima de BRAIM e lhe fala em surdina.)

TEGRIMO: No fundo da estalagem tem a cocheira. Encontre-me lá daqui a pouco. Saia discretamente. Eu dou um sinal quando sair.

(Na cocheira BRAIM, TIÃO e TEGRIMO se encontram)

TEGRIMO: Entre na paliçada o mais breve possível. Observe os detalhes e me informe. Quero saber de tudo, principalmente quantos jagunços existem para defender a paliçada. Onde ficam e tudo mais.
BRAIM: Você pretende atacar a paliçada? Eu pergunto isso porque vou levar para lá as mercadorias à venda e se houver saque eu perco tudo.
TEGRIMO: Não se preocupe com isso, haja como se nada fosse acontecer. Venda tudo que puder. Você não terá prejuízo.
BRAIM: E quando será isso?
TEGRIMO: Sinceramente não sei. Quando estivermos prontos. Fique atento e bico calado.

(TEGRIMO se retira rapidamente)

TIÃO (muito nervoso) Ele já tem um plano pronto. O que será de nós?
BRAIM (Um tanto irritado) Claro que tem um plano e nós fazemos parte dele. Não vamos recuar. Faremos nosso papel e espero que seja bem-sucedido.
TIÃO: Como bem-sucedidos? Ele é um facínora e nos matará assim que não precisar mais de nós. Além de roubar todas as nossas mercadorias. Vamos fugir agora.
BRAIM: Uma coisa de cada vez, TIÃO. Controle os seus nervos. Ele não tem por que nos matar. É certo que ficará com nossas mercadorias, mas ao menos temos chances de sairmos vivos. Precisamos saber quando atacarão e ganharmos tempo. De qualquer modo vou marcar logo a ida à paliçada. Isto será fácil pois até já fui convidado pelo chefe da guarda.
TIÃO (Espantado): Então você também tem um plano! Deus nos salve.
BRAIM: Vai dar tudo certo TIÃO. Afinal quem não tem um plano?
TIÃO: Eu tenho um plano bem simples. Fugir agora memo.

(BRAIM e TIÃO voltam à hospedaria, discutindo)

BRAIM: TIÃO você é um covarde.

TIÃO: Não me importo desde que fique vivo.

3ª cena

casa-de-japiim-com-paliaada
( Dentro da paliçada no interior da casa de JAPIIM,)

TIÃO (falando baixinho quase para si mesmo) Cristo do céu! Quanto luxo.

BRAIM: É o nosso melhor freguês.
TIÃO: Só estamos há poucas horas aqui e já tenho vários fregueses .Muitos sapatos para consertar e vários dentes para arrancar.
BRIAM: Não deixe de observar tudo que o TEGRIMO pediu.
TIÃO: Eu já sei quase tudo. Só não conheço o interior desta mansão.
BRAIM: Esta parte eu cuido.

(Entram JAPIIM, D.MATILDE E D.JOANA, BRAIM e TIÃO fazem várias reverências a eles)

JAPIIM: Sejam bem-vindos nesta casa. Estamos curiosos em saber as novidades.
BRAIM: Garanto que ficarão admirados. Tudo de boa qualidade.

(BRAIM e TIÃO abrem os baús e as peças vão saindo entre as exclamações de satisfação dos fregueses)

D. JOANA: (demonstrando alegria) Vou precisar quem costure minhas roupas com estes finos tecidos.
BRAIM. Ora, D. JOANA, bem sabe que o TIÃO é um exímio alfaiate.

(A cena esmaece. Um quarto se ilumina na estalagem)

4ª CENA

(Entram num cômodo privado da estalagem TEGRIMO e um grupo de capangas com a presença de BRAIM E TIÃO))

TEGRIMO: Já tenho todos os detalhes do funcionamento da Paliçada. O Chefe da Guarda está conosco. Amanhã à noite ele abrirá o portão. As posições da defesa são essas que lhes mostrei. Seremos rápidos para neutralizá-los. Eu e um grupo invadiremos a mansão. O povo detesta JAPIIM e seus capangas, conforme apurei. Não o defenderão.

BRAIM E TIÃO (confabulando)

TIÃO: Mas será amanhã que receberemos os pagamentos?
BRAIM: Calma TIÃO. TEGRIMO me garantiu o pagamento.
TIÃO: E se não der certo esta invasão.
BRAIM: Vai dar certo, Confie.

(TEGRIMO se aproxima dos dois enquanto a turba se dispersa.)

TEGRIMO: Vocês vão para a paliçada assim que refrega terminar. Quero que juntem todos os objetos de valor da mansão e os coloquem em lugar seguro que lhes indicarei. Garanto o pagamento das suas mercadorias. Enquanto eu sondava as pessoas sobre JAPIIM me foi falado que ele tem um tesouro e eu quero descobrir onde ele está.
BRAIM: Já tinha ouvido esta história.
TIÃO: Eu também, Inclusive que este tesouro estaria escondido na Igreja sob os cuidados do Padre Fidélis.
BRAIM: Até hoje este boato nunca foi confirmado, Muitos o procuraram em vão. Mas o fato é que saqueando a região por tanto tempo não duvido que exista tal riqueza.
TEGRIMO: Sou dessa opinião. Mas onde estará? De qualquer modo vou descobrir.

(A luz esmaece e BRAIM e TIÃO estão ao pé da paliçada. Ouve-se o som de gritos e luta depois silêncio e gritos de júbilo)

BRAIM: Será que tiveram sucesso na invasão?
TIÃO: Melhor darmos o fora.
BRAIM: Ouça TIÃO é a voz de TEGRIMO

(Voz de TEGRIMO ao longe)

TEGRIMO: Vitória. Abram os portões para o povo.
BRAIM: Este é o sinal. Vamos entrar
TIÃO: Você vai na frente.

(BRAIM E TIÃO entram na mansão dominada por TEGRIMO. No salão, aos pés de TEGRIMO, amarrados e feridos JAPIIM, D. MATILDE e outros capangas, Ao redor inúmeros aldeões gritando e xingando JAPIIM e sua turma. O salão se esvazia ao comando de TEGRIMO, restando somente JAPIIM, D. MATILDE e D. JOANA).

TEGRIMO: Estes são os meus termos. Me digam onde escondem suas riquezas e os deixo ir. Caso contrário os entrego à turba, que pelo visto não estão muito satisfeitos com vocês.
JAPIIM: Não tenho nada escondido. Pode procurar o quanto quiser.
D.MATILDE: São boatos maldosos.
D.JOANA: Leve tudo que achar, mas nos liberte.
TEGRIMO: Vocês têm dois dias para falarem onde esconderam seus tesouros. Já sabem as consequências.

(Os prisioneiros são retirados do salão menos D.JOANA à qual TEGRIMO se dirige em particular.)

TEGRIMO: Você é uma bela mulher, eu vejo, ( enquanto oferece a ela uma taça de vinho) Soube que é muito ambiciosa e, pelo que dizem, não admira tanto assim seus pais. Eis o que lhe proponho. Fique comigo, seja minha concubina e quando seus pais revelarem onde esconderam as riquezas prometo compartilhá-las com você.
D.JOANA: O que me garante que você cumprirá sua palavra?
TEGRIMO: O desejo. A mais potente força que move o mundo. Toda riqueza e poder cobiçados servem unicamente para satisfazer os desejos. Por ele conquistam-se os mares, faz-se a guerra, mata-se, rouba-se, mente-se, e se constroem castelos, templos e obras grandiosas. De que me adianta as riquezas que amealho se não for para poder saciar meus desejos por uma bela mulher como você.
D.JOANA: Mas você pode saciar sua volúpia me violentando.

TEGRIMO: Sim posso, e já fiz isso em outras inúmeras vezes. Mas isto só sacia a carne e fugazmente. Você com certeza tem desejos maiores do que viver neste mísero vilarejo sendo vilipendiada por JAPIIM e D. MATILDE. Posso lhe oferecer muito mais do que estas riquezas materiais. Posso lhe dar uma vida livre.
D.JOANA: No meio desta selva em que vivemos? Longe de toda civilização? Fugindo constantemente?
TEGRIMO: Não pense que sou um bruto ignorante e que não reconheço como estamos longe do conforto e da abundância. Mas, com a fortuna que podemos dispor, por que ficar por aqui? Por que não mudarmos para uma grande cidade? Lisboa. Roma. Paris. Londres. Nunca seremos achados ou perseguidos. O que me diz? Sua garantia é o desejo de me inspira.
D.JOANA: Não sou uma mulher fácil. Ou você cumpre a palavra ou terá de me violentar, e não ficarei surpresa. Mas no momento não vejo melhor oferta. Vou arriscar.
Prometo que se for assim resgatada farei de tudo para saciá-lo.

TEGRIMO (oferecendo um brinde a D.JOANA) Que nossos desejos sejam satisfeitos.

(BRAIM e TIÃO ouviram todo este diálogo enquanto embrulhavam os objetos valiosos que TEGRIMO os encarregara de fazer. D.JOANA retirou-se)

TIÃO (na surdina para BRAIM) Mas que falsa, interesseira e traidora.
BRAIM Veja por outro ângulo. Ela está à porta da morte, perdeu tudo, desesperada.
Esta proposta é um sopro de esperança.

(TEGRIMO vê os dois e os aborda)

TEGRIMO: Se é verdade que há um tesouro, certamente D.JOANA sabe onde está. Se JAPIIM E D. MATILDE não revelarem, a JOANA, por ambição só terá a mim para recorrer. ( ri-se sarcasticamente)  Preciso que vocês me ajudem a localizar o PADRE FIDÉLIS . Ele deve saber  alguma coisa.
BRAIM: Me desculpe a franqueza, mas e se não houver tesouro nenhum?
TEGRIMO: Então juntaremos um com a ajuda da cidade. Tem muito ouro escondido por aí.

(Retira-se do salão soltando uma gargalhada. BRAIM e TIÃO ficam sozinhos no salão)

TIÃO: Ele está bêbado e louco. E nós estamos no meio disso.
BRAIM: Ele tem razão. D.JOANA e o Padre FIDELIS devem saber de alguma coisa, se houver realmente tal fortuna escondida.
TIÃO: Ele tem JAPIIM,  D. MATILDE e D.JOANA  como prisioneiros. Irá torturá-los até descobrir onde estão estas riquezas.
BRAIM: Talvez, mas não poderá ser muito duro com eles. São idosos e não resistirão à tortura. Ademais são tão sovinas que tentarão resistir ao máximo. Precisamos achar o PADRE  FIDÉLIS.
TIÃO: Eu sei onde ele está. Fui arrancar uns dentes na vila e a cliente, uma senhora, muito católica,  me disse que ele está aterrorizado escondido numa embarcação no porto. Certamente procurando escapar.
BRAIM: 
Temos de encontrá-lo. Vou perguntar ao BASÍLIO, um marinheiro meu conhecido, se ele ouviu algo.

(Voltam  à estalagem Opara-Oca e encontram BASÍLIO, o marinheiro em um local discreto)).

5ª cena

BRAIM: Preciso de uma informação importante e pago bem. (Mostra uma bolsa cheia de moedas) O que você sabe sobre o paradeiro do PADRE  FIDÉLIS?

BASÍLIO (segurando a sacola com moedas) Este saco está muito leve.
BRAIM (mostrado outra bolsa semelhante) Se a informação for boa haverá mais.
BASÍLIO: Sei onde ele está, mas lhe digo que não parece nada bem.
BRAIM: Precisamos encontrá-lo com urgência antes de TEGRIMO.
BASÍLIO (Pegando a segunda bolsa) Não sei quanto tempo poderei manter o padre escondido. Estou me pondo em risco. Os capangas do tal de TEGRIMO estão aterrorizando a cidade. Ainda não foram ao porto, mas estão perto. Eu vou zarpar se o perigo aumentar e abandono o padre.

BRAIM: Não será um bom negócio. Há mais dessas moedas se salvá-lo.
BASÍLIO: Mas se eu for morto elas não me servirão para nada.
BRAIM: Eu tenho um plano, mas preciso de sua ajuda.
TIÃO: Outro plano BRAIM?  Podemos simplesmente zarpar com o BASÍLIO enquanto é tempo.
BRAIM: Espere mais um tempo.. D. JOANA quer fugir e me prometeu dizer onde está o tesouro se a levarmos junto.
TIÃO: Quando ela lhe disse isso?
BRAIM: Eu explico depois.
BASÍLIO: Muito bem. Espero mais uns dias se não for atacado pelos capangas de TEGRIMO. 

( BRAIM E TIÃO saem da taberna e retornam à paliçada. Já anoitecia quando entram no salão da mansão e encontram TEGRIMO e seus principais capangas reunidos)

TIÃO (no caminho à paliçada) Que história é essa que D.JOANA lhe prometeu revelar o local do suposto tesouro? Quando foi que você se tornou tão íntimo assim dela?
BRAIM: Eu inventei isso para encorajar BASÍLIO a nos esperar. Precisamos resgatar nossas mercadorias antes de embarcarMOS.
TIÃO: Não vejo como faremos isso.

BRAIM:  Já juntamos tudo numa sala, como mandou TEGRIMO. Só temos de achar uma oportunidade de transferir os baús para a chalupa de BASÍLIO.
TIÃO: Faremos isso flutuando a carga no ar até o barco enquanto ficamos invisíveis.

BRAIM: Acharemos um jeito.
TIÃO: Espero que você não tenha um plano.

(O salão estava fervilhando com os homens de TEGRIMO).

UM QUADRILHEIRO
Estamos em grande desvantagem, devemos fugir e levar o que saqueamos.

MUITAS VOZES NUM BURBURINHO.

TEGRIMO (calando os companheiros)
Vamos recuar levando o que pudermos dos saques e nos reagruparemos na floresta. Então os fustigaremos seguidamente. Coletem tudo que puderem, Nos retiramos e incendiamos a paliçada e a casa.

(Gritos de júbilo dos presentes. TEGRIMO vê BRAIM e TIÃO e os chama. )

TEGRIMO: Vocês coloquem tudo numa carroça e nos sigam.
TIÃO: O que diabo está acontecendo?
TEGRIMO: Uma coluna militar fortemente armada vinda do Recife se aproxima de Opara,  comandada pelo execrável TUPIUNA,  feroz , cruel e ambicioso. Eles têm dez vezes mais homens do que nós. Mais armas e são treinados em batalha. Se os enfrentarmos de peito aberto seremos derrotados e perdemos tudo. Vamos recuar.
BRAIM (dirigindo-se para TIÃO em particular) Viu? Este é o  plano.
TIÃO: Que plano que nada, é o fim da estrada.

BRAIM: Vamos fazer o que TEGRIMO mandou e na hora de partirmos tomamos o rumo do porto. Vá na frente e avise o BASÍLIO para preparar a chalupa. Se for o caso lhe dê outro pagamento.

(BRAIM com alguns ajudantes carregaram a carroça. Já se ouvia o vozerio dos invasores e a azáfama dos fugitivos. BRAIM subiu na carroça e rumou para o porto. Lá encontrou TIÃO E BASÍLIO)

BRAIM: Vamos descarregar logo a carroça. TUPIUNA e suas tropas estão próximos
TIÃO: Tive de aumentar a propina do BASÍLIO. O PADRE FIDÉLIS está lá dentro. O homem está muito mal não sei se resiste à jornada.
BRAIM: Tem de resistir. Só ele talvez saiba se existe e onde está este misterioso tesouro. De qualquer forma recuperamos nossos bens e mais alguma coisa. (gritando) BASÍLIO, vamos zarpar imediatamente!

chalupa

 

(Era final de tarde e à medida que se afastavam do porto podiam ver a confusão na cidade. As tropas de TUPIUNA invadem Opara de forma brutal, BRAIM junto com TIÃO, BASÍLIO e o PADRE FIDÉLIS, embarcados na chalupa vão em direção ao mar. No entardecer vêm a cidade em chamas. BRAIM desceu até à cabine
da chalupa para encontrar com PADRE FIDÉLIS)

BRAIM: Salve, PADRE FIDÉLIS, já navegamos afastados da cidade. Creio que estamos à salvo. Vamos para o Recife. Serão no mínimo três dias de viagem, se o tempo ajudar e tudo der certo. Infelizmente não pudemos resgatar o JAPIIM, nem a D.MATILDE que provavelmente  foram mortos e a D.JOANA que foi sequestrada por TEGRIMO. O terrível TUPIUNA saqueia a cidade e mata seus cidadãos, a paliçada foi destruída e incendiada. Espero poder atendê-lo no que possa durante esta navegação.
PADRE FIDÉLIS: Obrigado, meu filho, por me salvar das mãos destes terríveis malfeitores. Vou orar pela alma do JAPIIM, D.MATILDE e pela D. JOANA.

( Põe-se a orar. Com um terço às mãos. TIÃO adentra a cabine trazendo comida. E água.)

TIÃO: Padre o senhor precisa comer. Me disseram que não tem se alimentado há dias. Esta viagem é longa e cansativa e espero que tenhamos bom tempo. Mas logo estaremos no Recife.

PADRE FIDÉLIS:  ( encara TIÃO E BRAIM): Não vamos para Recife, mas para Salvador.

(BRAIM e TIÃO olham com espanto para o padre)

BRAIM: Por que para Salvador?
PADRE FIDÉLIS:   Porque é lá que está o espólio de JAPIIM do qual sou curador e somente eu posso resgatá-lo.
BRAIM: Padre, me explique com toda calma esta história.
PADRE FIDÉLIS: JAPIIM amealhou durante sua vida, por meios certos ou tortos, uma enorme fortuna. Há algum tempo me pediu que a levasse para Salvador e a pusesse à salvo. Sempre fazia doações à nossa igreja e por isso aquiesci. Levei tudo para Salvador e  depositei na Igreja da Sé sob a guarda do PRIOR e firmei um documento previamente assinado por JAPIIM, D.MATIIDE e D.JOANA, no qual somente eu ou um deles poderia resgatar o tesouro. A Sé ficaria então com um décimo do valor. Portanto, preciso me apresentar ao PRIOR e assinar na frente dele o documento de resgate. Mudem o rumo da embarcação.

(BRAIM saiu da cabine e juntou-se a BASÍLIO ao leme)

BRAIM: Mude o rumo para Salvador.
BASÍLIO: Por que faria isso?
BRAIM: Porque você quer ficar rico.
BASÍLIO: Não sei do que se trata, mas confio nos seus palpites. Vamos para Salvador. É quase a mesma distância do Recife,  levaremos, se Deus quiser, o mesmo tempo.

(Na tela ao fundo o sol se põe e se levanta várias vezes)

TIÃO: Já são três dias de viagem tranquila. o PADRE  FIDÉLIS está resistindo.
BASÍLIO: Já avistamos Salvador
BRAIM:  (No cais de Salvador) Vamos ficar numa convento cujo Pároco é amigo do PADRE FIDÉLIS.
TIÃO: E os nossos pertences?
BRAIM: Irão conosco. Temos de nos organizar para ir até a Sé de Salvador e resgatar a riqueza. O PADRE FIDÉLIS tem de se apresentar.
TIÃO: Mas ele mal se aguenta em pé.
BRAIM: Por isso temos de fazê-lo logo. Você arranja umas boas garrafadas para manter o PADRE FIDÉLIS  vivo pelo menos por uns dias.

( No convento eles são recebidos com surpresa e consternação pelo estado de saúde do PADRE.)

PÁROCO: PADRE FIDÉLIS é nosso grande benfeitor. Vocês são muito bem-vindos à Paróquia.
BRAIM: O PADRE FIDÉLIS, devido a seu estado de saúde me constituiu como seu tutor e tendo ele alguns assuntos comerciais, preciso arranjar um encontro dele com o PRIOR da Igreja da Sé, para atender aos interesses do Padre, que obviamente não esquecerá a sua boa-vontade.

PAROCO: Posso arranjar isso. O PRIOR conhece o Padre FIDÉLIS, mas, ele está em condições para comparecer a este encontro?

BRAIM: Com certeza, o Padre FIDÉLIS estará tinindo no encontro.

PÁROCO: Amém

BRAIM:  Amém.

(Sol vai, sol vem. BRAIM e TIÃO confabulam.)

BRAIM: Guardaremos o tesouro aqui no Convento de Freiras  seja lá o tamanho dele. Elas, as freiras, também nos ajudarão a cuidar do PADRE FIDÉLIS. Claro que será preciso fazer uma boa doação.

TIÃO: O PRIOR ainda não respondeu. O PADRE FIDÉLIS está bem, tanto quanto possa, mas não aguentará muito.

BRAIM: Vou cobrar do PÁRACO

(No pátio do convento BRAIM  e o PÁROCO conversam ).

PÁROCO: Este é o local adequado para a convalescência do PADRE FIDÉLIS. Também agradeço a generosa doação que  fez ao convento.

BRAIM: PADRE FIDÉLIS é muito grato aos senhores.

PÁROCO: O PRIOR respondeu e marcou para daqui a dois dias a entrevista. Ele está querendo muito encontrar o PADRE FIDÉLIS.

(O sol se põe, sol se levanta.  o  PADRE FIDELIS, BRAIM e TIÃO se  preparam para o encontro.)

BRAIM:  As irmãs o banharam, cotaram-lhe os cabelos e a barba, perfumaram-no e o vestiram com uma batina nova. Como se sente?

PADRE FIDÉLIS: Vamos logo com isso enquanto eu aguento.

(Na boleia de uma carroça BRAIM e PADRE FIDÉLIS conversam)

BRAIM: Qual a sua relação com o PRIOR. Ele será receptivo?

PADRE FIDÉLIS: O PRIOR me odeia, mas teme JAPIIM e gosta da riqueza dele. Não podemos dizer que JAPIIM e sua família estão mortos. Invente uma história. Ele só precisa me reconhecer e assinar a liberação .

BRAIM: Chegamos.

( No salão da sacristia da Igreja o PRIOR os esperava)

mosteiro

PRIOR: Então PADRE FIDÉLIS, o que o traz aqui. Mais uma missão de JAPIIM e sua infame família?

BRAIM: Perdoe-me excelência. mas como pode ver o Padre FIDÉLIS está com a saúde bastante abalada. Por conta disso o senhor JAPIIM me determinou que o escoltasse até Salvador para que ele decida como administrar os bens que estão sob sua guarda segundo o contrato vigente.

PRIOR: O que quer JAPIIM?

BRAIM: Ele determinou que o Padre FIDÉLIS resgatasse os bens sob guarda da Sé. Naturalmente honrando a cláusula do dízimo.

PRIOR: O que me diz PADRE FIDÉLIS.?

PADRE FIDÉLIS: Estou aqui para assinar o documento de liberação a pedido de JAPIIM.

PRIOR: Que seja. Isto me dará muita satisfação por livrar-me desta obrigação

PADRE FIDÉLIS: E o deixará mais rico.

PRIOR: Uma justa reparação.

(Põe um documento à frente do PADRE FIDÉLIS que imediatamente o assina).

PRIOR (quase gritando) PADRE ASSISTENTE! Verifique nos porões os bens de JAPIIM, separe-os e os dê a estes dois.

(BRAIM e PADRE FIDÉLIS retornam ao convento com seis mulas alugadas por BRAIM e carregadas com doze baús. No pátio do convento os dois conversam).

TIÃO: O que faremos ?

BRAIM: Por enquanto a guardamos e continuamos a tratar do PADRE FIDÉLIS e a subornar as freiras

(SOL NASCE E SE PÕE. (No pátio do convento Braim e Tião conversam)

BRAIM: O PADRE FIDÉLIS finalmente morreu .

TIÃO: E agora o que faremos com toda essa fortuna?

BRAIM: Japiim e sua família  estão, quase certamente, mortos e não há  nenhuma instrução sobre o espólio. Portanto presumo que somos os donos. Tem uma nau que parte de Salvador para Lisboa mês que vem. Dá tempo de sobra para nos organizarmos.

6ª CENA FINAL

(No telão ao fundo da cena aparece o filme de um galeão ao mar, uma Igreja no campo.

NARRADOR:

TREZENTOS E CINQUENTA ANOS DEPOIS, NA PARÓQUIA DE N.S. DE OPARA, NA VILA DE AVELISSA EM PORTUGAL FOI ENCONTRADO UM LIVRO ANTIGO COM OS RELATOS DE IBRAHIM E SEBASTIÃO, PATRONOS E CONSTRUTORES DA IGREJA.  NO PARÁGRAFO FINAL ESTAVA ESCRITO:

“A LUTA ENTRE TEGRIMO E TUPIUNA DEIXOU UM RASTRO DE DESTRUIÇÃO EM OPARA DE TAL MONTA QUE A VILA SIMPLESMENTE FOI ABANDONADA E NUNCA MAIS SE RECUPEROU. O PARADEIRO DE TODOS ELES NUNCA FOI SABIDO.”

 

 

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