O Paulo morava numa bela casa com um grande quintal e muitas árvores na rua Pinto
Guedes. Ele era um aluno modelo dos Maristas, católico praticante, boas notas e um ás
no futebol. Criara até um time que usava seu amplo quintal como campo de treinamento
e jogos.
Na casa moravam, ele, o irmão, a mãe e a avó, além de duas fiéis empregadas.
Ser convidado para jogar bola no quintal do “perfeito” Paulo era quase um privilégio.
Neste dia, pela manhã, num fim de semana haveria uns jogos no campinho da casa e eu
fazia parte de um dos times.
Reunimo-nos debaixo de duas frondosas mangueiras que bordejavam o campo de
futebol e, em meio às conversas o próprio Paulo trouxe e nos mostrou o presente que
recebera do pai, uma espingarda de pressão de chumbinho.
O Paulo, responsável e cuidadoso, montara um estande de tiro à beira do campo. Um
alvo espetado na ponta de uma madeira encostada ao muro da casa. Antes da pelada
divertimo-nos atirando chumbinhos no alvo.
Os times já se arrumavam para iniciar os jogos. Meu time esperaria a próxima partida,
assim eu e outros ficamos com a espingarda atirando no alvo.
A avó do Paulo era uma senhora idosa numa cadeira de rodas, sempre acompanhada
por uma ajudante e ela, provavelmente vítima de um derrame cerebral só conseguia
pronunciar a palavra “casa”. Qualquer coisa que quisesse falava: – Casa, casa. A família já
decifrara as entonações e atendia a velhinha. Os meninos, nunca na presença do
´´integro” Paulo apelidaram o campo e as atividade nele ocorridas como “Casa. Casa”.
Dizia-se insidiosamente que era o campeonato “Casa, casa”, claro sem que Paulo, o bom,
tivesse conhecimento do apelido.
O nome viera da presença constante da avozinha do anfitrião á beira do campinho. que
por vezes parecia torcer falando “Casa! Casa”!
Puseram-na debaixo de uma das mangueiras, abrigada do sol.
O jogo começou e eu e os outros meninos preferimos continuar atirando ao invés de
acompanhar a pelada.
Em determinado momento uma pomba pousou num galho da mangueira exatamente
acima da vovó Casa, Casa. Aquilo foi para mim um desafio. Sem pensar um segundo
sequer, virei a espingarda para a ave e disparei, achando que erraria, mas acertei em
cheio no peito da pomba. Ela despencou do galho como uma fruta madura e caiu no colo
da vovó Casa-Casa que assustadíssima começou a gritar. O jogo parou e vieram em
socorro da senhora.
Eu estava com a arma do crime na mão, uma família inteira me apontando e os colegas
fazendo uma zoeira infernal. Eu sob os gritos do Paulo, de sua família, e as vaias dos
colegas fugi correndo.
Nunca mais frequentei aquela casa. O “certinho” Paulo nunca mais falou comigo e entre
os garotos da rua, pelo ocorrido e por algum tempo fui chamado de “Casa- casa”. O ano
virou e o episódio foi esquecido