Silovina era uma revoltada. O fora desde criança, mas a família não notara, apenas a achavam geniosa e teimosa, nada diferente de outras crianças. Seus pais a amavam e a tratavam muito bem. Deste ponto de vista não se justificava sua revolta. Tivera uma adolescência igual a de todos os jovens da sua época. Namorara, mas seus parceiros a achavam um tanto difícil pelo gênio independente e voluntarioso. Ela, no entanto, julgava que era sua índole revoltosa que afastava os rapazes. Pouco se importava. Sendo bonita, inteligente e culta sempre havia pretendentes a querendo. Mas, ela iniciava um relacionamento e logo se revoltava:
– Mas, Silovina, porque queres terminar o namoro comigo? – Era uma pergunta frequente em seus romances.
– Porque você me revolta – Ela respondia, sinceramente.
– Em quê, como eu te revolto?
– Não sei, mas me revolta. – E o namoro terminava.
Com esse perfil belicoso ela tornou-se professora de filosofia e artes. Era bem vista pelos alunos e pela direção da faculdade onde lecionava. Suas aulas eram bem concorridas inclusive por alunos de outras disciplinas.
– Estes alunos são revoltantes – Costumava a resmungar entredentes.
Ela mesma se achava diferente e por conta desta estranheza íntima resolveu buscar ajuda com um psicanalista. Aliás dentre os inúmeros que se consultou, encontrou um só, o Dr. Crodovil, cuja paciência bíblica conseguiu uma trégua com Silovina.
– De onde acha que vem esta sua revolta? – Argumentava sistematicamente o médico. – Aí está a chave da sua condição. Não são os outros que a revoltam, mas algo dentro de você mesma que se projeta no próximo.
– Mas eu não me revolto com você.
– – Talvez porque pensas que precisas de mim.
– Eu preciso sim, Crô. Imensamente.
A relação entre a cliente e o terapeuta foi pro espaço logo no início da terapia. Silovina era uma mulher muito bonita e charmosa e Crodovil não soube como inibir o crescente desejo que o assomava na presença dela. Tornaram-se amantes. Trocavam juras de amor a todo instante num encantamento perceptível a qualquer um por perto. Se casaram. A revolta desaparecera da vida de Silovina. Mas, na verdade, apenas não se manifestava. No íntimo ela continuava revoltada. Detestou a cerimônia de seu casamento. Detestava a casa que compartia com Crô. Revoltava-se secretamente pela forma delicada e atenciosa como o marido a tratava. Sexualmente, já saciada, se revoltava com o modo como ele entendia seus desejos.
– É irritante como ele me faz gozar – Pensava intimamente abraçada ao querido Crô.
Os filhos paridos normalmente, mas em cada parto uma onda de revolta.
– É ridícula a maneira como reproduzimos. Tudo. Desde a trepada até ao parto. E estes sentimentos a que estamos sujeitas. Amamentar, cuidar o tempo todo, se preocupar com a saúde. O apoio irrestrito de Crô. Revoltante!
Eram sentimentos sinceros. Contudo sua racionalidade deixava tais afeições submergidas psiquicamente. Seu comportamento como fêmea da espécie “Fato irredimível” como pensava, era aceito e lhe concebia um comportamento socialmente reconhecido como adequado.
Silovina era feliz e ao mesmo tempo infeliz. O sentimento de revolta que tomava conta de sua mente era muito mais forte do que qualquer outro, amor, ódio, indiferença. Silovina se aprimorou na arte de dissimular sua revolta a ponto de ser considerada uma pessoa equilibrada psicologicamente. Seus próprios filhos não percebiam o turbilhão revoltoso da mãe e Crodovil sabia da situação, mas não atinava o grau de revolta que se acumulava na existência de Silovina.
Então, ela por circunstâncias fortuitas, se meteu na política. Aquilo foi um bálsamo para a ansiedade revoltosa de Silovina. Mergulhou de cabeça na militância política. Seus inflamados discursos onde pregava a revolta e indignação com as coisas, todas elas, todos os costumes, todas as ideologias tornavam-se referências nos contextos das disputas políticas nos diferentes ambientes. Publicou um livro com suas falas: “Porque me revolto”. Daí foi um pulo para que a convidassem a se candidatar a deputada numa das revoltantes eleições que teimavam em realizar.
Qual o partido da Silovina? Que ideologia ela defendia? Pouco importa. Silovina onde quer que estivesse, em qualquer ambiente ideológico era uma revoltada, e conseguia transmitir esta sensação de revolta aos seus eleitores. Eles se sentiam representados em suas revoltas, cada um com a sua.
A TV entrevistou a recém eleita deputada Silovina:
– Bom dia deputada Silovina do partido R. Como a Sr.ª vê a situação política atual?
– É revoltante. Quem se importa com o que as pessoas sentem? Elas suportam resignadas o desprezo dos poderosos pelas suas agruras. Pais, mães, filhos enfim todos sofrendo este abandono. Só resta se revoltarem contra tudo isso, e têm o meu apoio.
– E o que a Sr.ª pretende fazer enquanto deputada para minorar este sofrimento.?
– Combater as causas destas tristezas, se rebelando contra as práticas nefandas que as promovem. Por isso convoco todos que se revoltam contra estas situações para cerrarem fileiras na incessante luta contra elas.
As aparições de Silovina na TV, nos jornais e nas redes sociais deram a ela tal publicidade que surgiram várias associações e clubes de apoio como: “As mulheres revoltadas”, “Revoltadas do bairro Funil”, e outros. Não havia manifestação política, em geral públicas e ao ar livre que não contassem com a presença de Silovina, inclusive as promovidas por outros partidos como foi o caso do grupo “Esposas revoltadas” de um partido ultra conservador.
Mas a grande polêmica foi a fusão dos grupos “Socialistas revoltados” com o grupo “Católicos revoltados” que levou inclusive o Bispo Gaetano Saprovita da diocese da capital a se pronunciar contra tal associação:
– “Católicos não se unem a grupos revoltosos”.
Mas as adesões só aumentavam.
Ninguém fazia propaganda destes grupos, eles não tinham uma sede, não divulgavam seus dados, não havia informações sobre eles, muito menos sobre como filiar-se ao movimento, no entanto, o número de adeptos revoltados só fazia crescer, e Silovina era indiscutivelmente a figura mais proeminente entre eles. Ela comparecia às reuniões e manifestações públicas com milhares de participantes onde havia cartazes e bandeiras de todos os tipos. Nas redes sociais havia milhões de seguidores de podcasts de revolta. Era uma febre na cidade. Nos carros, adesivos do tipo “Eu me revolto” viraram um fenômeno social que abrangia inclusive o comércio. Camisetas, e roupas estampando temas de revolta, publicações abordando o tema que virara objeto de estudo nas universidades e uma editora convenceu Silovina a escrever um livro contando sua história. Ela escreveu tudo que sentia e vivera sobre sua revolta. O livro tornou-se um dos mais vendidos e o editor sugeriu que se fizesse um filme documentário sobre Silovina. Ela topou. Contrataram um reconhecido diretor para conduzir o roteiro. Ele então, na preparação do documentário, entrevistou Silovina.
– Você Silovina, me conte desde o princípio como se revoltou, melhor contra que você se revoltou.?
As câmeras e gravadores acionados Silovina respondeu com toda sinceridade:
– Não faço a menor ideia.
Houve uma pausa que durou algum tempo
– Mas, Silovina – o diretor rompeu o silêncio – O que revoltava você?
– Como eu disse, não faço a menor ideia.
– Sim entendo, você era jovem, mas alguma coisa desencadeou sua revolta
– Pois é isso que lhe digo. Não faço a menor ideia. Desde que me conheço por gente eu me revolto. Claro que aos poucos fui constatando que havia coisas que me revoltavam mais, outras menos.
– Então, diga-me com o que, na sua memória, primeiro você se revoltou.
– Acho que com tudo, não foi nada específico.
– Bem deve ter acontecido algo muito significativo com você que desencadeou essa revolta.
– Não, nada que eu me lembre. Minha infância e juventude foi bem tranquila. Minha família é amorosa e de boa convivência. Eu era aplicada na escola, tinha amigos, me divertia. Gostava muito de ler e tudo mais.
– E a revolta?
– Sim a revolta. Eu a sentia o tempo todo. A família, os amigos, a escola tudo isso me revoltava e eu sentia aquele aperto no peito, aquela onda de revolta, mas aprendi a controlar e não deixar transparecer.
– Agora, aqui algo a revolta?
– Sim, você. Sinto-me revoltada de ter de lhe conceder esta entrevista, aliás toda essa ideia e preparativos, esta festa e agitação em torno de mim me revolta profundamente.
– Mas e seus seguidores, o movimento de revolta na cidade o que lhe parece?
– Revoltante, tudo revoltante. Nunca pedi para que me seguissem ou às minhas ideias e opiniões. Nunca declarei que esta ou outra situação eram revoltantes. Cada um sabe o que se lhe revolta.
– Você seria, por assim dizer, uma rebelde sem causa?
– Em absoluto. Não propugno, de fato, por ideologia alguma. Não critico ou desmereço ninguém. Apenas me revolto e deixo transparecer. Não tenho preferências políticas, nem religiosas.
– Isto é desconcertante. Há milhares de admiradores seus ávidos por ouvi-la, para seguir seus conselhos, suas palavras. Como posso lhes dar nada diante desta perspectiva?
– Não lhes dê nada, ou invente qualquer coisa, pouco me importa. Eu não sou responsável pelo fuzuê que fazem só porque me declaro revoltada. Nunca disse porquê da minha revolta e pra dizer a verdade isto tudo me revolta.
– Há muito dinheiro investido neste documentário, Ele pretende ser uma espécie de manifesto político da evidente revolta popular que suas palavras trouxeram…
– Alto lá. Eu nunca disse nada a respeito disso. Não me importa a revolta dos outros, cada um sabe de si. Ademais não tem um centavo meu nessa iniciativa.
– Você alguma vez tentou se tratar psiquicamente – Interrompeu-a enfaticamente o diretor
– Sim com o meu psiquiatra, com quem me casei, e foi a única pessoa com a qual nunca me revoltei até hoje. Nem com meus filhos foi assim.
A conversa ficou mais tensa e ríspida, quase degenerando em ofensas. O diretor foi embora fulo da vida, resmungando para o seu assistente.
– Que mulherzinha irritante. Não vai ter documentário algum, ela é apenas uma maluca.
– Que ironia. – Completou o assistente – Não vamos filmar a musa da revolta e ela lhe deixou revoltado.
O documentário não foi feito e a fama de Silovina como encrenqueira se espalhou, mas com diferentes versões. A dada pelo diretor, que achincalhava com ela e a que se propagou pelos seus admiradores: – “Ela não se vendia para interesses mercantis”. Silovina não usava as redes sociais, raramente telefones celulares, no entanto havia inúmeras páginas nas redes usando o seu nome. Isto deixou-a mais revoltada. Quem se preocupava mais ainda era Crodovil que acompanhava o noticiário e percebeu que a revolta subjetiva se transformava num movimento autônomo. Não precisavam mais da sua esposa, grupos de revolta surgiam por toda parte e tinham lemas: Revolta contra as administrações e serviços públicos, grupos de revolta contra lojas e mercados, ou que reivindicavam melhores salários. E as manifestações se sucediam e ficavam cada vez mais agressivas. Alguns estabelecimentos foram depredados pelos revoltosos que gritavam entre outras coisas o nome de Silovina.
Crodovil tomou uma radical decisão. Preparou uma fuga. Iriam para um sítio de sua família numa cidadezinha do interior.
Eles deixaram a cidade bem cedo pouco antes de explodir uma imensa arruaça nos bairros e que foi rudemente reprimida pela polícia. Silovina segundo as notícias do rádio era procurada pelas autoridades que alegavam ela estar no comando da insurreição. Ela ouviu tudo calada pois temia que seus filhos ficassem assustados, mas no seu mais íntimo pensamento jazia uma revolta intensa como ela nunca sentira. Chegaram no sítio e foram festivamente recebidos pelos parentes do Crodovil. Ficariam o tempo que fosse necessário, mas oficialmente para a família estavam de férias prolongadas.
À noite junto ao marido Silovina perguntou:
– O que vamos fazer agora?
– Nada – respondeu Ctô. -Esperamos a revolta passar. Eles com certeza esquecerão porque se revoltaram e você não vai lembra-los.
– Crô. Eu te amo. Você é a única pessoa que não me revolta.
– Eu sei Silô, eu sei.
REVOLTA PURA
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