
O padre Zvygbniev, da paróquia da Igreja de Santo André Bobola, em Kuźniki distrito de Wrocław na Polônia tem a fama de ser um bidu. Durante a missa, na homilia, o Pe Zvyg, como é conhecido, entra num aparente transe espiritual e, como atestam os fiéis, vaticina sobre o destino das pessoas e dos acontecimentos históricos ou sociais.
Diz-se que previu o atentado ao Papa João Paulo II, o “impeachment’ da Dilma Roussef, a conquista da copa do mundo pela Espanha, a eleição do Trump e muitas outras coisas. Mas, são suas predições individuais para cada fiel da Igreja que lhe dá tanta credibilidade. Elas não são dirigidas individualmente, mas interpretadas pelos auxiliares da igreja, em geral voluntários. A igreja tem um calendário especial para as missas celebradas pelo Pe. Zvyg. Os assentos no templo são distribuídos por sorteio entre os fiéis cadastrados e obviamente com preferência aos que fazem polpudas doações monetárias à igreja. Dispendioso, e bem rentável, é o cobrado pelos tradutores aos fiéis não poloneses. Enfim, tornou-se um local de intenso turismo religioso e útil à economia da cidade.
Há um grupo de turistas que, vez por outra, visita a Igreja e são, por assim dizer, devotos do Pe. Zvyg. De fato, são dois grupos do mesmo país e se distinguem por suas preferências político partidárias. Precavida, pelas experiências anteriores, a paróquia distribui cada grupo em dias diferentes de atendimento pelo Pe. Zvyg. Mesmo assim fora da Igreja, na cidade Kuźniki se pode dizer que “o pau come”, a tal ponto que a prefeitura pediu reforços à polícia durante a estadia destes brasileiros. Eles são obrigados a ficar em diferentes andares nos hotéis e nunca são atendidos ao mesmo tempo no comércio, lojas, restaurantes etc. Distinguem-se facilmente pelas roupas e bandeiras de cada grupo que ostentam. Segundas e quartas-feiras vai à Igreja o grupo T e às terças e quintas-feiras o grupo “M”, denominações escolhidas por eles mesmos.
O povo originário da região, apesar de já há anos conviver por temporadas com estes estrangeiros, por dificuldades linguísticas e culturais não entende em absoluto qual é o assunto que os dividem e os trazem juntos. “Estranho”, acham, mas é bom para os negócios.
Se os habitantes da cidade tivessem notado, saberiam que a vinda das levas de peregrinos brasileiros coincidia como o calendário de eleições no Brasil. E se atentassem um pouco mais perceberiam que as insígnias T e M eram correspondentes às facções políticas em disputa.
O que talvez eles não entendessem era a razão pela qual vieram para ouvir o Pe. Zvyg, Para isso teriam de compreender o misticismo daquela gente. Apesar de profundas divergências políticas, nem sempre muito claras, eram profundamente supersticiosos e misturavam diferentes credos num amálgama que nem eles mesmos conseguiam explicar. Todos acreditavam nas profecias do Pe. Zvyg , todos acreditavam nas histórias bíblicas, em milagres, nos santos, nos orixás e todos rezavam para toda e qualquer entidade mística. Era por isso que buscavam as predições do Pe. Zvyg pois para eles o sacerdote nunca falhava, mas nem sempre suas palavras eram adequadamente interpretadas. Talvez porque os “tradutores” não dominassem muito bem o português.
Durante as missas, quando percebiam o `Pe.Zvyg em transe gravavam suas palavras para levarem aos “tradutores” que por módicas quantias traduziam e interpretavam aquelas falas,
O roteiro da excursão era praticamente o mesmo para os dois grupos e girava em tono das missas do Pe. Zvyg. Havia alguns passeios nas folgas das missas, mas em geral o tempo era dedicado às transcrições dos discursos do Pe. Zvig e sua posterior interpretação.
O hotel alugava dois de seus salões de festa, um para cada grupo trabalhar nas traduções e interpretações. Era tudo feito buscando esconder ao máximo os resultados dos dois grupos. As frases do Pe. Zvyg eram muito sincréticas e quase sem sentido. Isto soava como um desafio para os grupos.
Uma das frases, no entanto, suscitou um debate incandescente, não devido a coincidência da tradução, mas à discrepância na interpretação. Frase era: “A benção surgirá e, encantará triunfante a todos que se amam”. Mesmo se mantendo à distância, os dois grupos encetaram uma entusiástica discussão sobre o significado.
O hotel oferecia no restaurante bebidas e lanches aos hóspedes, claro incluindo os custos nas diárias, e era nesses momentos que algum tipo de confraternização acontecia entre os membros dos grupos. Afinal, eram todos brasileiros.
Foi num desses intervalos que Maria e Luís se conheceram.
Maria é uma artista. Pintora bem conhecida no seu estado natal e fervorosa militante do grupo “M”. É uma senhora bonita, simpática, inteligente, culta, talentosa, bem educada, e apoiadora das ideias de seu grupo, mas, a bem da verdade, não saberia discorrer sobre o que exatamente o seu grupo propugna.
Luís é professor de história, regula em idade com Maria. Tem boa aparência, boa situação de vida e é ardoroso militante do T. Ambos estão na excursão turístico-política pelo seu roteiro de viagem “sui generis”, uma cidade polonesa com um padre adivinho.
Antes de se apresentarem formalmente os dois se miraram bastante tempo, se avaliando mutuamente. Sem dúvida houve uma atração bem intensa entre eles, mas tudo bem coreografado para que não escaparem de seus olhares. Na mesa do café no salão se postaram propositadamente um ao lado do outro e trocaram sorrisos. Maria falou primeiro:
– Você é de onde?
A partir daí entabularam uma conversação a ponto de esquecerem o trabalho das interpretações. Os grupos se dispersaram, mas os dois ocuparam uma das mesas do restaurante e lá permaneceram até que os garçons avisaram que precisavam preparar o salão para o almoço.
– Você vai almoçar aqui ou podemos procurar outro lugar? – indagou Luís.
– Que lugar? Eu não conheço nada desta cidade.
– Eu conheço. Ontem eu contratei um guia e ele me mostrou os lugares mais interessantes. Posso sugerir?
Assim os dois acharam uma típica pizzaria polonesa, sossegada o bastante para que continuassem suas conversas. Voltaram já anoitecendo ao hotel.
Pela manhã o Pe. Zvyg oficiaria a 1ª missa do dia e o grupo “M” estava escalado para assisti-la.
Maria do grupo M se preparou toda, bem bonita e foi encontrar o Luís. Os pontos turísticos da cidade, se é que se poderia chamar assim, foram visitados naquela manhã mesma e os dois passearam por um parque próximo, almoçaram em outro restaurante típico polonês de culinária oriental e, diante da vazia Igreja de Santo André Bobola onde Luís deveria ter assistido a 2º missa do Pe. Zvyg, eles se beijaram e no íntimo se consideraram apaixonados. Não voltaram para o hotel da excursão, foram para outro mais distante pois temiam a reação dos colegas, dos grupos.
Ficariam mais alguns dias na cidade torcendo para que o aríolo dissesse algo inteligível. Não foi o caso. Somente a frase da “benção” causou interesse. A excursão continuava aguardando as profecias do Pe. Zyyg, que demoravam ou eram enigmáticas, o que alimentava a animosidade dos grupos cada frustração das premonições.
Luís comentou:
– Eu acho meio patético gastar tanta energia, e dinheiro, para ouvir um monge alucinado.
– Mas foi por causa dele que nos conhecemos.
– E nos enamoramos. É verdade. Não vou falar mal do velhote abilolado.
– Tenha mais respeito por ele.
– E o que faremos quando isto acabar?
O que os dois não desconfiavam era que foram vistos namorando pelos dois grupos e que o romance deles virava tema central das fofocas do dia. Considerados traidores por alguns que até sugeriram expulsá-los dos grupos. Isto só não aconteceu porque se temia que esta querela desviaria a vigília pela profecia.
Na manhã seguinte ambos foram interpelados nos seus respectivos grupos. Alguns comentários foram muito agressivos o que irritou bastante tanto Luís quanto Maria.
– Vou deixar bem claro para todos. A vida é minha e não tenho que dar satisfação a ninguém. E além disso eu acho que esse negócio de consultar um padre sabichão é besteira. Deveríamos, isso sim, estar em casa fazendo campanha pelo T.
A discussão virou um bate-boca barulhento ao que se ajuntaram às idênticas imprecações vindas do salão do grupo M
Maria enfrentava as mesmas críticas acerbas e se defendia igualmente fazendo valer a sua vontade.
– Qual é o problema de vocês? Somos conterrâneos , falamos a mesma língua e temos opiniões diferentes, mas não cultivamos o ódio.
As vozes subiam e alguns começaram a se xingar, quando os responsáveis pela excursão do lado T e do lado M intervieram e conseguiram aplacar os ânimos. Foi nesse momento que um integrante do grupo M, que acabara de vir da missa da tarde exclamou:
– O Pe. Zyvg fez uma profecia mais clara., ele disse:
– A benção irá para aquele que mais me louva!
Fez-se um silêncio momentâneo seguido pelo burburinho das interpretações. Eram agora duas frases a serem interpretadas:
: “A benção surgirá triunfante” e a “ Os que mais me louvam serão abençoados!”
Este fato galvanizou as atenções e praticamente os namorados foram esquecidos. Como consequência os dois puderam mudar a programação e passaram a comparecer às missas juntos e demonstrando claramente o envolvimento dos dois. Mãos dadas, abraços, beijos e olhares apaixonados.
– O meu grupo acha que esta profecia claramente aponta para M como vencedor. – Maria falou com Luís.
– Não vejo como. Ela pode se referir a qualquer um dos dois ou a nenhum deles. – Rebateu Luis e continuou – Estes polacos são muito espertos estão enrolando todo mundo. Primeiro ninguém entende bulhufas do que o tal Pe. Zvyg fala. Só se sabe o que os tradutores e intérpretes revelam e ‘ta claro para mim que quanto mais misterioso fica, mais eles ganham nas consultas. Virou um bom negócio.
– Você não pode negar todos os acertos que ele teve, com gente de todo mundo
– É o que dizem, mas não provam.
– E o que faremos então? Você vai acusar o Pe. Zvyg como charlatão? Terá coragem?
– Nem penso em fazer isso, a turma me bate. Mas a verdade é que perdi o interesse de acompanhar o grupo. Prefiro mil vezes ficar contigo e aproveitar ao máximo o prazer da tua companhia. Maria, eu estou apaixonado por você.
O momento rapidamente transformou-se numa cena de mútuas declarações de profundo amor. Alguns excursionistas à volta testemunhavam curiosos e enternecidos ao ponto de baterem palmas.
O romance de Maria e Luís foi o assunto dos dias subsequentes.
Próximo do fim da jornada os excursionistas, de ambos os lados, mostravam-se mais tolerantes entre si e um tanto frustrados com as parcas revelações do aríolo padre polonês.
– Ele está gagá. Nem sabe o que está falando. E ainda mais em polonês – Afirmava um.
– Mas ele é polonês. – Respondia outro.
– Muito velho pra ser adivinhão.
– É um homem santo.
– Santo e caduco. Só valeu pelo passeio.
– E pelo romance da Maria com o Luís.
– O que eles farão? Como se conciliarão com suas ideias?
– O amor opera milagres. Acho que deveriam se casar. Porque não aproveitar e pedir ao Pe.Zvyg para casá-los.
– ‘Taí uma boa ideia pra acabar com o tédio desta excursão. Que tal sugerirmos isto para os grupos?
Esta sugestão se espalhou como um incêndio e logo as opiniões se dividiram pondo em discussão entre os grupos o destino dos amantes. Estava claro que a maioria via com benevolência aquele namoro e mesmo os que criticavam não eram muito enfáticos:
– Nem sei se são católicos.
– Isso não importa. Eles se amam.
– A igreja, ainda mais a polonesa, jamais aceitaria dar este sacramento a infiéis.
– Nem sabemos se eles querem, depois os polacos não precisam saber estas situações. Nós diremos que no Brasil é assim.
– Não diremos nada até que saibamos o que os dois pombinhos querem.
Foi constituída uma equipe com ambas facções para levarem a proposta aos dois enamorados. Maria e Luís já coabitavam o mesmo quarto e indiscutivelmente não mais se importavam com as atividades dos grupos. Aliás os grupos cada vez mais não se distinguiam como antes. A expectativa de que o bidu desse alguma pista do futuro político para os dois grupos era nula.
– Como um padre polonês, senil e com alucinações vai entender da nossa política? – Comentava-se.
Um grupo encontrou-se com o casal Maria e Luís, apresentaram a ideia de forma tão efusiva que não havia chance de recusarem.
– Eu sou ateia – Argumentou Maria – Eles jamais aceitariam isso.
– Mas você concorda que se aceitarem você se casa na Igreja?
– E vocês me dão alguma alternativa?
– Eu também sou ateu, mas fui batizado pelos Franciscanos nos Capuchinhos da Tijuca.- Esclareceu Luís. – neste caso acho que não haverá empecilhos.
O assunto durou até o dia seguinte quando os líderes dos dois grupos comunicaram que depois de muitas discussões o Prior da igreja concordou com o casamento e ainda por cima a ser oficiado pelo Pe. Zvyg. Claro que houve uma generosa contribuição à Igreja por uma “vaquinha” nos grupos, feita de última hora com a adesão de quase todos.
Estavam a dois dias do fim da excursão, portanto o casório teria de ser no dia seguinte, ainda mais porque o Pe. Zvyg só estaria disponível nesta data. Os preparativos foram acelerados de tal forma que na tarde seguinte, com a igreja lotada pelos dois grupos, toda ornamentada, com músicos contratados e recepção no salão de festas do hotel, deu-se, na presença do Pe. Zvyg a cerimônia nupcial. O religioso, como era de seu costume, entrou em transe várias vezes fazendo muitas afirmações, mas ninguém prestou atenção ou anotou o que ele dizia. Na plateia um dos ‘tradutores,” mesmo sem ser pago explicou aos líderes do grupo:
– O Pe. Zvyg afirmou que as suas palavras ditas nas missas passadas eram dirigidas a eles dois: “A benção surgirá e triunfante aos dois que se amam!
– Mas não foi isso exatamente que ele disse – Afirmou o líder do grupo M
– E o que importa isso? Ninguém leva mesmo este monge à sério. – Respondeu na surdina o líder do grupo T.
Saiu tudo OK. Os grupos partiram. Maria e Luís foram para a lua de mel, não se sabe aonde.
FIM