CAMARÕES NA RUA JOÃO SÉCA
O dinheiro circulante, as moedas quase inexistentes e cédulas, eram pouquíssimos usadas. Fazia-se o escambo.
Isto em consequência da guerra civil no país.
Faltava tudo e quase nenhum serviço público ou privado funcionava adequadamente.
Eu tinha um acordo escuso com o dono de uma peixaria no bairro, que ocasionalmente era abastecida, quando então se formava uma enorme fila à porta pelos que buscavam comida.
Eu fornecia uísque comprado na loja diplomática em troca de pescado, sendo que era muita cachaça para pouco peixe;
Nestas ocasiões eu preparava um almoço para umas duas ou três famílias de amigos, dentre elas a do peixeiro. Eu avisava em cima da hora pois se a notícia se espalhasse a fila seria na minha porta.
Neste dia o Avelar, o peixeiro, trouxe muitos quilos de “gambas” – camarões graúdos – explicando-se:
– “Não posso pôr-me a distribuir estas gambas porque haverá um tumulto à porta. ´É melhor comê-las logo”
Era um domingo calorento e me dispus a preparar os camarões e outros acompanhamentos mesmo porque eu tinha gás para o fogão e também as cervejas alemãs da loja diplomática.
O rádio ligado com as músicas locais e a conversa fiada correndo solta. Mas, inesperadamente um primo do Airosa, este meu amigo e vizinho, bateu à minha porta. Foi prontamente acolhido e bem servido da boa cerveja. Ele olhou espantado a montanha de gambas prestes a serem cozidas de vários modos e não havia como disfarçar sua surpresa. Veio até mim e ao Airosa e meio incrédulo afirmou:
– “Mas que “bué” de gambas! Vamos comer tudo isso?
Rimos do seu espanto e o Avelar ainda acrescentou:
– “Tem outros sacos destes aguardando. Pode se servir à vontade”.
O primo do Airosa, após um tempo, pensativo e ainda mostrando certo atordoamento, levantou-se e partiu porta a fora, exclamando:
– “Ô pá! Eu tenho de ir-me para uma tarefa.
Foi estranha esta atitude, mas, pensamos: “Algum compromisso lembrado”.
Continuamos a festa, e cada panelada de camarão era saudada com júbilo e mais bebidas, o clima ficou realmente animado e já ensaiávamos alguns passos de dança.
A campainha do portão tocou. Eu atendi;
À frente, o primo do Airosa acompanhado por uma dezena de pessoas. Ele falou:
– “Eu contei para eles das gambas, eles não acreditaram e quiseram ver também”
Apesar da desculpa esfarrapada e da cara de pau do primo do Airosa e amigos, havia muito camarão ainda e bebidas.
“- Nós não daríamos conta mesmo de comer tudo isso, manda eles entrarem” – disse o peixeiro Avelar.
A festa durou até à noite com muito camarão, música e dança.
Foi ótimo, mas não se repetiu.