PÓ NO SAPATO
Fabiano encontrou o Luís depois de alguns meses afastado.
– Olá, meu rapaz. Faz tempo que não nos vemos.
-Pois é desde que você começou a namorar a Inês. E por falar nisso como ela está?
– Bem, mas terminamos o namoro.
– É mesmo? Poxa! Vocês pareciam tão entrosados.
– Olha, estávamos mesmo. A Inês é uma pessoa formidável. Você conheceu, né? Linda, alegre, inteligente, simpática, nós nos entrosávamos bem em todos os aspectos. Mas tinha um detalhe. Ela gostava de cocaína e maconha.
– É… isso pode ser um problemão.
– Eu que o diga. Mas, nunca cobrei dela que mudasse os hábitos, mas sempre dava minha opinião. Ela ria e dizia que eu era muito “careta”. Eu não sou “careta” mas prudente. Consumir drogas do jeito que ela fazia não pode ser saudável, além de caro. Mas, vida que segue, havia outras compensações e eu estava muito feliz com ela e acho que ela comigo.
– E o que aconteceu que desandou tudo?
– Dois fatos em sequência. Primeiro houve uma festa. Uma festança. Ela tinha uns amigos cheios da grana e completamente doidões. Um deles tinha uma mansão na praia e foi lá que houve a festa. Eles convidaram meio mundo, tudo doidos como eles e abonados, de jogar dinheiro fora.
– Consumindo drogas como eles é o mesmo.
-Pois na festa rolava de tudo. Eu fiquei no uísque porque alguém precisava estar mais ou menos sóbrio, mas a Inês, se sabe né, emburacou no pó.
Em determinado momento eu estava num quarto rodeado de cheiradores e um deles com um copinho de plástico na mão, cheio de pó, trêmulo, tentava bater uma fileira no tampo da mesa e os outros fissurados à volta. Então, aí foi meu azar, acho que como eu era o único que não tremia ele me pediu que segurasse o copinho enquanto com uma colher tirava o pó de dentro para pô-lo na mesa.
– Que doidera!
– Pois é, na hora não me toquei que podia dar errado. Segurei o copinho, mas no agito alguém esbarrou em mim e o copinho foi derrubado e o pó caiu dentro de um sapato.
– Pô, meu, que azar,
– Isto não é nada. Os caras estavam tão alterados que começaram a cheirar o sapato e disputavam cada um puxando o calçado do outro. Virou uma briga séria.
– Eu ainda estava com o copinho na mão e alguns deles me acusavam pelo acidente. Ficaram muito agressivos e eu tive de distribuir uns tapas ao redor.
– Caramba, que história.
– Pois é, aquilo degenerou numa briga que saiu do quarto e se espalhou pela casa. Neguinho se estapeava sem saber porque. Eu aos trancos e barrancos me mandei do local, mas não consegui achar a Inês. Fui embora sozinho. Mais tarde ela chegou em casa, puta da vida. Dizendo que quase fora presa por minha causa. Discutimos. Ela, agitada ainda resolveu bater mais uma fileira na minha frente e aí veio o motivo do rompimento
– Como se precisasse de mais motivos…
-No auge da discussão ainda tentamos conciliar e resolvemos ir para a cama. ‘Cê sabe, né? A Inês é muito gostosa, né? Tudo parecia que ia se resolver e aí ela cheirou uma carreira de pó antes da gente trepar. Trepamos, foi bom, e aí eu perguntei a ela: “Você precisa mesmo desta droga pra gozar?”
– E ela?
– Ela, ficou irritada e me perguntou bem agressiva:
– Porquê? Você ‘tá com ciúmes da droga?
– Bem, é que eu acho que depois que você toma estas coisas, qualquer piroca serve.
– Foi bem no alvo, cara.
– Foi, mas ela ficou tão brava que tivemos uma baita discussão e eu fui embora. Rompemos e eu não a vi mais desde então.
– É uma pena, a Inês é uma pessoa legal.
– Também acho, mas ‘tava difícil continuar…