SANGUE DO MEU SANGUE

SANGUE DO MEU SANGUE

A Rudi, apelido de Rudinéia, uma mulher jovem, bonita, bem educada e muito religiosa teve um sério problema de saúde e precisou ser internada no HUPE
Ela teve uma complicação vascular e sanguínea que o atendimento médico rápido conteve. Descobriu-se que os problemas dela estavam relacionados com a doença falciforme detectada. É uma doença que afeta as células vermelhas do sangue, causada por um defeito genético congênito e hereditário comumente ensinada como “uma doença característica da raça negra”.
Mas, Rudi era branca, pelo menos na aparência, tanto quanto seus pais.
A comunicação deste diagnóstico a ela e à família decorreu com muito constrangimento.
– Isto quer dizer que ela tem antepassados negros? – Perguntou o pai, um tipo branco de olhos claros e visivelmente contrariado com esta informação.
Apesar de toda calma que o médico Residente tinha, o diálogo foi bastante ríspido.
– O senhor está errado. Minha família não tem ancestrais negroides. – Rebateu o Pai.
– Meu caro senhor, não sou eu quem afirma isso, mas a ciência. Pouco importa minha opinião ela continuará com os genes dela que são hereditários.
Ao fazer esta firmação o Residente percebeu que o assunto não era médico ou genético, mas moral. O pai de Rudi teve sua confiança abalada pela possibilidade de ela não ser a filha legítima dele, tanto que numa argumentação exaltada afirmou:
– Isso não vem da minha parte! Isso não vem da minha parte!
A mãe de Rudi ouvia e cabisbaixa chorava silenciosamente. No consultório da enfermaria o ambiente não poderia ser mais tenso.
Mas este era o menor dos problemas.
Havia de se decidir pela terapêutica transfusional, que aumentaria muito as chances de sobrevivência da Rudi, mas o pai além da contrariedade do perfil genético da filha era visceralmente contra as transfusões de sangue por ser adepto das Testemunhas de Jeová que como se sabe são radicalmente contrários a este tipo de procedimento.
O Residente, em silêncio, ainda considerou o que o professor titular da enfermaria declarara. “Que havia de se respeitar a decisão da família”.
“Que situação”. Pensava. “Ela ‘tá doente por conta de uma ancestralidade renegada pelo pai, com possibilidades de exibir a infidelidade da mãe e ainda por cima impedida de se salvar por força de um dogma religioso idiota, corroborado por um professor mais estúpido anda”,
O ambiente não desanuviara quando entrou na sala um senhor de meia idade num terno branco impecável carregando nas mãos um exemplar reconhecidamente da Bíblia e se dirigiu ao pai de Rudi. O Residente soube então que aquele era o pastor da igreja da família, chamado para arbitrar a situação. Dadas as explicações o Residente pediu para falar a sós com o religioso.
O Residente com toda paciência que pode demonstrar, explicou ao Pastor, tim-tim por tim-tim, a gravidade da situação e a premente necessidade das transfusões. Evitou de toda maneira abordar o problema por sua face religiosa, tratava-se simplesmente de uma urgência médica para salvar uma vida.:
– Va lá que seja também uma alma. – Asseverou.
– Não é uma questão médica, mas espiritual: – Rebateu o Pastor. – Aceitar sangue seria uma violação direta da lei divina, ademais, os médicos devem oferecer alternativas e respeitar a decisão do paciente, mesmo em situações críticas, e essa escolha é legalmente protegida no Brasil e em diversos países.
– Mas, meu caro Pastor, ela está sob os meus cuidados e eu fiz um juramento, o de Hipócrates, e é meu dever salvá-la por todos os meios possíveis.
– Seu juramento é a um Deus pagão e não pode se sobrepor à palavra revelada por Deus, na sagrada Bíblia.
O Residente percebeu que era totalmente inútil convencer o Pastor e ao que parece toda família, do contrário, então diante de todos, na sala, com a maior circunspecção disse e, alto e bom som:
– Dada a situação, caso a paciente decida, por escrito, e por sua própria vontade que realmente rejeita o tratamento, isso será respeitado, mas, não tenham dúvidas, ela morrerá e essa chaga será unicamente de vocês, que fique isto bem claro.
O Residente retirou-se demonstrando toda sua contrariedade e já no gabinete da direção do Hospital participou de uma reunião da Diretoria com o consultor jurídico do HUPE.
– Quais as consequências decorrentes da recusa da paciente ao tratamento? – Perguntou o Diretor.
O jurista, pigarreou antes de falar:
– É uma situação inusitada e nem mesmo tem uma jurisprudência em que possamos nos basear. De um lado deixá-la à própria sorte, respeitando seu desejo, é praticamente condená-la à morte, o que seria para todos os efeitos um assassinato, portanto sujeito às responsabilidades e sanções penais. Por outro lado, há o preceito Constitucional do livre arbítrio e da liberdade religiosa. De qualquer maneira, o caso deverá ser registrado na polícia, principalmente se houver a morte, pois acho pouco provável que qualquer médico se responsabilize pela declaração de óbito. Além do que não é de todo impossível que a própria família ou alguma parte interessada processe o Hospital e seus médicos por negligência. ´E realmente uma situação muito delicada.
– Não há como demover a família desta deplorável decisão? – perguntou alguém.
– A própria paciente, por ser maior de idade é que, em última instância pode decidir, mas ela é profundamente religiosa e pelo visto seguirá as orientações da igreja.
– Então, antes de qualquer desenlace, devemos dar-lhe alta hospitalar a pedido ou à revelia e nos eximirmos de qualquer responsabilidade futura. – Falou o Diretor.
– Isto não resolve o problema – ajuntou o Residente – do ponto de vista clínico o caso dela tem uma solução bem viável que lhe salvará a vida e isto é nossa responsabilidade. Mesmo que ela recuse por qualquer razão que seja, ainda assim eu sou o responsável pelo tratamento dela e nem importa se fiz ou não um juramento de Hipócrates, trata-se de uma vida humana, da vida dela, que pode ser interrompida por uma crença idiota. Eu não sou obrigado por nada neste mundo a respeitar uma decisão tola e irracional. E por favor, mandem o Pastor embora do Hospital antes que eu perca a cabeça.
– Recebi há pouco um recado da mãe da paciente que quer conversar comigo, o Diretor e o médico Residente.
O jurista então pediu a palavra.
– Acho prudente que haja esta conversa e que se consiga demover a família desta decisão, no mínimo insensata e cruel, Por outro lado sugiro que se peça na justiça um Habeas Corpus que garanta a continuidade do tratamento por risco iminente de morte, um dano irreparável. De um jeito ou de outro não vamos escapar de um julgamento. Eu posso conversar com o Pastor e alertá-lo que ele pode ser responsabilizado por induzir uma pessoa ao suicídio, o que é um crime.
A mãe, sozinha, ficou frente ao Diretor e ao Residente, demonstrando enorme ansiedade, frequentemente indo às lágrimas, o que trouxe ao ambiente um clima de imensa tristeza. Ela então falou com a voz entrecortada de soluços:
– Por favor, Doutores, salvem minha filha. O Pastor e o pai dela são dois fanáticos. O meu marido é uma boa pessoa, um homem dedicado ao trabalho e à família e a Rudi é imensamente ligada a ele não só pela religião, mas pelo amor que têm um com o outro. Não a salvar só pode ser uma atitude desesperada e louca da qual irão se arrepender amargamente, e o Pastor jamais deveria ter se metido nisso.
– A senhora já conversou isto com sua filha? – perguntou o residente.
– É só o que tenho feito mas, o pai junto com aquele endemoniado do Pastor ficam atazanando o espírito dela com aquelas besteiras todas do pecado e tudo mais. O que quero é salvar minha filha. Por favor, darei qualquer consentimento ou testemunho para isso.
E debulhava-se em prantos.
A cena abalou sentimentalmente os dois que imediatamente convocaram o Jurista, Pastor e o pai à Direção. Ajeitados na mesa de reunião o Diretor tomou a palavra:
– Chamei-os aqui devido à gravidade da situação da Rudi. Em primeiro lugar quanto à saúde dela. Temos convicção que com tratamento apropriado ela será curada desta crise e poderá seguindo um tratamento adequado ter uma vida normal. Acho uma temeridade não nos esforçarmos para salvá-la e, quanto a mim, como Diretor deste hospital e antes de tudo como médico, repilo completamente a possibilidade de não a tratarmos adequadamente. Sei das restrições religiosas de vocês mas pediria sua atenção ao que nosso advogado tem para comunicar. Por favor Doutor, tem a palavra.
Os dois, Pastor e pai, diante da severidade que estavam sendo tratados nem abriram o bico.
– Obrigado, senhor Diretor. Eu quero deixar bem claro que sigo a melhor doutrina jurídica que possa haver, dentro da ética jurídica e médica, à parte de qualquer consideração religiosa ou dogmática. Isto posto, quero comunicar-lhes que entrei na justiça com um habeas corpus preventivo que entre outras coisas identifica vocês dois como agentes perniciosos que tentam induzir uma jovem adoentada a aceitar uma decisão drástica e irreparável que lhe custará com certeza a vida. Diante disso solicito ao juiz uma sentença de restrição de acesso à pessoa da Rudi e aos recintos hospitalares, até que se resolva o caso. Tenho aqui a cópia da petição e creio que no máximo amanhã isto estará posto.
– Desde já – afirmou o Diretor – vocês estão proibidos de se aproximarem do hospital e peço que aceitem de bom grado a decisão para evitarmos tomar medidas mais enérgica. No entanto poderão manter contato com o Residente para acompanharem a evolução da paciente. Estamos gravando esta conversa e tenho aqui uma declaração que peço que assinem com um resumo das nossas decisões.
Os dois, estupefatos, olhavam-se sem demonstrarem que dariam qualquer resposta. Até que o Pastor pediu a palavra:
– Meus caros senhores, em boa hora estamos fazendo esta reunião para tratarmos de tão delicado assunto.
O Residente considerava mentalmente se não seria o caso de já, imediatamente, esbofetear o religioso, mas continha-se. O Pastor continuava a falar.
– Justamente, eu orava junto ao progenitor da querida Rudi, pedindo iluminação ao Senhor Jesus sobre como deveríamos conduzir este caso. O pai da Rudi, ela mesma e toda família são tementes a Deus e seguidores fiéis da nossa congregação, que se diga, de passagem, estão todos numa corrente de orações pela nossa irmã Rudi. Aleluia!
-Aleluia. – Exclamou o pai
Diante dos olhares dos componentes da Direção do HUPE, o Pastor percebeu que deveria resumir sua fala.
– Sim! Recebemos uma clara indicação do Espírito Santo! Ele nos pediu que batizássemos a querida Rudi, no ritual da Igreja, pois – que lástima – ela ainda não foi purificada. Tão logo esteja pronta faremos o ritual. Ocorre que, para este problema do tratamento dela, justamente o fato dela ainda não ter sido consagrada, a isenta de qualquer restrição para que se submeta a esta terapia. E agradecemos ao Senhor que tudo provê mais esta iluminada inspiração. Amém!
– Amém! – responderam todos.

.

 

Mais postagens

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Subscribe to My Newsletter

Subscribe to my weekly newsletter. I don’t send any spam email ever!