RIGOBERTO MORREU
Rigoberto se viu num local desconhecido. Não lembrava absolutamente de nada nem do próprio nome, exceto que tinha certeza que morrera.
Não se considerava perdido e a paisagem lhe parecia agradável. Perambulou pela orla da praia. O dia estava muito bonito e tudo parecia tranquilo. Não tinha ideia do quanto andara e muito menos do tempo que gastara. Não se cansava nem sentiu sede ou fome. Apenas continuou andando até que sem ideia de quanto caminhara, encontrou outra pessoa. Não se apresentaram mesmo porque não se lembravam de seus próprios nomes. Rigoberto perguntou ao outro:
– A quanto tempo está aqui?
– Não faço a menor ideia. um minuto, um século?
– Você sabe onde estamos?
– Nem imagino.
– Você sabe o que é este lugar?
– Nem de longe.
– Tem alguém que saiba?
– De todo mundo que já encontrei ninguém sabia.
– Tem alguma cidade por perto?
– Não que eu conheça.
– Onde as pessoas moram?
– Desconheço qualquer moradia,
– E para onde vão as pessoas?
– Sinceramente não sei. Vez ou outra revejo alguém, mas de regra nunca mais os vejo.
– Tem alguém conhecido?
– Não lembro de nenhum, mas como não lembro de nada, exceto que morri.
– Tem razão. Mas, há alguém responsável, por qualquer coisa?
– Se tem nunca se apresentou.
– Lugar estranho este. Evidentemente é uma manifestação postmortem, já que morremos, com certeza.
– Sem dúvida estamos mortos. Mas não sei o que é este lugar. Nem o que fazemos aqui.
– Sem memória e sem destino e nem ao menos uma explicação.
– Me perguntei várias vezes isto, mas desisti de entender. Mas não me perturba isso.
– Então somos fantasmas.
– Fantasmas de quem?
– De nós mesmos.
– É uma boa ideia, mas porque seríamos fantasmas desmemoriados,
Que sentido faria?
– Somos a alma de alguém. Sim, somo almas.
– Muitos me falaram esta suposição, mas onde estão as provas? O que são almas?
– Não sei mas talvez um de nós nos dê uma pista.
– Sim, talvez, mas aonde estão eles.
– Não sei, temos de procurá-los.
– Venho fazendo isso sem sucesso.
– Vamos continuar procurando e nos encontramos depois.
– Aonde se aqui não tem identificação dos lugares.?
– Aonde nos encontramos
– E você sabe onde é?
– Ok. Ficamos procurando um ao outro até nos encontrarmos.
Os dois se separaram e iniciarem suas buscas. O fantasma de Rigoberto percorreu os mais diferentes locais. Planícies, montanhas, vales, florestas, sempre seguindo trilhas já existentes, mas sem nunca encontrar um rastro. Então chegou a uma praia, mas não era a que conhecia.
Não atinava quanto tempo levou na peregrinação nem quanto percorreu. Em nenhum momento sentiu cansaço, fome, sede ou medo. Nem mesmo dormira todo esse tempo.
Suas dúvidas evoluíram para teorias.
Estava morto, isto com certeza, aliás a única que tinha, sua alma ou algo parecido foi conduzida ou se fez presente numa região fantástica, imaterial e metafísica., onde outras almas estavam. Mas, que fenômeno é este? E por qual regras funciona? Qual a história deste lugar fantástico. Como surgiu? É constituído porque forças?
Haveria um Deus onipotente responsável? Ou Deuses? Ou não haveria Deus algum e tudo seria não mais do que imaginação?
Sua peregrinação depois de um tempo incomensurável terminara e não esclarecera nada. Nem sombra de seu amigo.
‘” Ora”, continuou pensando – “Não parece haver nenhum Deus ou Deuses ou entidades sobrenaturais, portanto isso tudo é um fenômeno físico, cósmico, que ocorre quando se está morto. Talvez sejamos apenas um espectro metafísico ou um fenômeno físico desconhecido.”
Mas, porque estava consciente de si mesmo, se toda sua memória se apagara? Porque reconhecia um outro? Porque sentia os cheiros, tinha tato e seus sentidos estavam preservados?
Quanto mistério, mas nada disso o angustiava. Esperaria e em algum momento teria as respostas.
Percebeu que anoitecia, isto era novidade. No horizonte formavamse grossas nuvens escuras, e começou a relampejar. E trovejar. Pensou em abrigar-se pois já começara a chover. Correu pela trilha e surpreendeu-se quando viu uma construção, um galpão; dirigiu-se para lá justo a tempo de evitar um toró espetacular. No galpão havia dezenas de pessoas. “Era a hora de esclarecer as dúvidas”, pensou. O galpão estava repleto de poltronas confortáveis agrupadas em conjuntos de seis poltronas o que permitia uma proximidade para conversar.
Notou que só metade das poltronas estava ocupada sendo que em alguns conjuntos havia somente uma pessoa. Aproximou-se de um conjunto completo com seis pessoas e iniciou um diálogo no que foi rebatido:
– Aqui já está completo é melhor procurar outro lugar.
Ele pensou em responder esclarecendo sua intenção de conversar, mas notou que não seria acolhido e foi procurar um conjunto solitário; – Olá – disse para a moça sozinha em um dos conjuntos.
– Olá.
– Você tem ideia de quanto tempo está aqui?
– Nenhuma, mas creio que devo estar a muito tempo porque já me encontrei com dezenas de pessoas.
– Então você tem um círculo de amigos.
– Quisera eu, todos sumiram de vista, somente um deles reencontrei rapidamente.
– Você sabe para onde foram?
– Gostaria de lhe ajudar, mas não faço a menor ideia de onde poderão estar. Mas, tenho ou tive um conhecido que me disse uma estranha condição.
– Sim?
-Ele tinha esta teoria que aqui é uma espécie de estação de espera e que cedo ou tarde seríamos removidos para outro lugar.
– Que outro lugar, porque, como e por quem?
– Porra, ô meu, ‘tá querendo saber demais.
– Você não tem curiosidade?
– Pra dizer a verdade, não. Já pensei muito e queimei a cuca tentando entender. Conclui que sei o suficiente e que aqui está muito bem.
– E o que você sabe o suficiente?
– Que estou morta com certeza. E não almejo nada. Morta, mortinha da silva. Aliás você também. E continua procurando seu amigo.
– Como você sabe disso?
– Ora, todo mundo sabe.
– Como assim todo mundo sabe?
– Porque aqui não há segredos, todos sabem o que todos pensam.
– Eu não sei.
– Sabe sim. Concentre-se em alguém, em mim, por exemplo, e me diga o que penso.
Ele, um tanto surpreso fez o que ela mandou e sim, soube o que ela pensava, e não diferia do que ele pensava.
– Como pode isso? Como você descobriu.
– Como pode eu não sei, mas pode e eu descobri como todos, e exatamente como você.
– O que mais você sabe?
– Tanto quanto você.
A conversa se estendeu mais um pouco e como a chuva passara as pessoas se dispersaram inclusive sua companhia.
Ele decidiu tomar um rumo sem pensar muito no destino, mesmo porque não havia como estabelecer um. Na trilha que escolheu, após um tempo encontrou seu amigo.
– Descobri um monte de coisas.
– Eu sei.
– Claro
– Mas há algo que descobri que pode lhe interessar.
– A esta altura nada me surpreende.
– Estamos desaparecendo. Mas não de maneira súbita. Estamos esmaecendo.
– Não entendi.
– É isso mesmo, minha figura está cada vez mais apagada, não notou?
– Agora que você falou, realmente, seu contorno não está tão nítido. Como pode isso?
– Não sei, mas se continuar assim logo vou desaparecer. De fato, se pensarmos bem estamos esmaecendo desde que nos vimos aqui. – Sim, você tem razão. Então este lugar é o que? Um apagador de almas?
– Difícil responder a isso, mas assim como temos certeza que estamos mortos e completamente desmemoriados também temos certeza de nossa dissolução.
– Mas porque isso?
– Não sei, mas talvez não haja explicação alguma. De qualquer maneira vamos apagando.
– Quanto tempo leva até desaparecermos.
– Fique perto de mim e observe, não tem como contar o tempo, você sabe, mas é algo para se ver.
Eles ficaram juntos enquanto um deles desaparecia. Foi esmaecendo até ficar um vulto e finalmente sumir.
Rigoberto recostou-se num rochedo da praia e esperou até sumir também. Completamente.